
Quem se mova no meio e leia o que vai aparecendo, inevitavelmente chega à conclusão que o mundo politeísta ou pagão em Portugal é pobre, muito pobre. A qualidade académica das discussões é baixa, os temas debatidos esgotam-se demasiadas vezes numa agenda magico-esotérica e a presença nos debates inter-religiosos é insípida (o que não é de surpreender). E depois há ainda o problema das ligações de alguns grupos à extrema-direita, o que reduz ainda mais a qualidade do meio.
Ao mesmo tempo, há uma comunidade politeísta crescente que usa o inglês como língua nativa ou de comunicação e que expande há já vários anos a sua presença na internet, multiplicando grupos, listas de discussão e blogues. Como eu já estou um bocado cansado da mediocridade nacional, decidi "juntar-me à festa" e emigrar virtualmente (enquanto a real também não chega).
A partir de 1 de Maio, dia auspicioso e antigo ponto de viragem no calendário, vou estar como escriba de um novo blogue chamado Golden Trail (trilho dourado), onde o tema principal será politeísmo em particular e religião em geral, com muito de prática, crenças e gnosis pessoal à mistura. E tudo em inglês.
Este sítio continuará aberto. Porque de vez em quando lá vou escrevendo qualquer coisa sobre o "pântano" e porque aqui vou pondo ocasionalmente traduções portuguesas de coisas que escreva do outro lado.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Novo projecto
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domingo, 18 de abril de 2010
Praticar ou não praticar
Num encontro realizado em Alcobaça, o Cardeal Patriarca de Lisboa defendeu a necessidade de diminuir o número de cristãos "faz de conta", coisa que muito deve preocupar a instituição romana. Ainda há dias, o Expresso noticiou que só dois milhões de portugueses são católicos praticantes, o que, num país a roçar os onze milhões de habitantes, equivale a dizer que o catolicismo só é "a sério" para menos de 20% da população. E como é que vinte em cada cem podem justificar dias livres durante uma visita papal?
Mas, para lá dos privilégios, a questão dos cinco a seis milhões de católicos não-praticantes é revelador da forma de ver e viver o religioso em Portugal. O pragmatismo, a ausência de debate, a inexistência de pesquisa individual (por falta de meios ou de vontade) e até indicadores de identidade juntam-se num cocktail que leva a essa disparidade de milhões entre os que são de facto católicos e os que o são nominalmente.
Tenho em crer - porque diz-me a experiência e não um estudo cientifico - que muitos são católicos praticantes porque não sabem que mais ser. Isto é, são pessoas que se sentem religiosas, que recorrem ao espiritual em momentos de necessidade ou em ritos de passagem (como um casamento) e a forma que dão a essa sua espiritualidade é aquela que está mais à mão: o catolicismo. E fazem-no de uma forma muito pragmática em que ligam pouco ou nada a dogmas ou doutrinas e querem acima de tudo a concretização de desejos ou um sentido para actos muito específicos. Se preciso for, recorrem ao sincretismo religioso para atingirem os objectivos: quem conheça a realidade fora dos grandes centros urbanos, depressa percebe que rezas, mezinhas e símbolos não católicos convivem facilmente com santos do catolicismo em práticas que visam a obtenção de saúde, dinheiro, sucesso na escola ou no negócio, etc. Nada de muito filosófico ou teológico, tudo muito prático.
Questionadas sobre qual a sua religião, essas pessoas respondem ser católicas. Não-praticantes, claro está, que não vão à missa nem se reconhecem na Igreja, mas católicos, não obstante. Verdade seja dita, são poucos os portugueses que têm meios ou sequer vontade para realmente definirem e escolherem uma religião ou nenhuma. Fazê-lo implica pesquisar, ler, reflectir, debater e até experimentar, coisas muitas vezes distantes da realidade quotidiana de um país com baixos níveis de instrução, baixos índices de leitura e com pouca cultura debate, nomeadamente no religioso. Afinal, em quantas casas portuguesas se discutirá religião à mesa? Em quantos cafés e com que frequência? Quantos pais oferecem ou põem à disposição dos filhos livros que debatam temas religiosos (por oposição à literatura doutrinária)? Trata-se de uma coisa demasiadas vezes não-discutível, por indiferença ou por imposição de tradição familiar; se não é discutido e pensado, como pode alguém ser parte consciente e praticante de uma fé?
Por fim, há ainda uma questão identitária. Ou seja, um português que queira definir a sua religião em pouco tempo faz um exercício ao género de se olhar ao espelho e pensar que judeu não é, porque não sabe hebraico e não usa um "chapelinho"; muçulmano também não, porque não se dobra várias vezes ao rezar numa língua que não conhece, não se vira para Meca e porque não usa barba (se for homem) nem se tapa toda (se for mulher); hindu não, porque não é indiano nem vem de um "país tropical"; budista talvez também não seja, porque não rapa o cabelo, não faz meditação e não é tibetano; e ateu também não, porque acredita ou quer acreditar em alguma coisa. Os protestantes não têm santos e os ortodoxos é coisa de países de leste. E acaba mais ou menos aqui o conhecimento geral que muitos portugueses têm sobre outras religiões, que é simultaneamente uma lista de diferentes formas do "outro". Manda portanto que o sentido de identidade opte por algo "nosso", o bom e velho produto nacional, que neste caso é o catolicismo.
É de estranhar que, há algum tempo atrás, um estudo de opinião tenha concluído que um número considerável de pessoas acha que ser português equivale a ser católico?
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Numa palavra: brilhante!
Há um programa da BBC - o Intelligence Squared - onde, em cada edição, uma moção é posta a votação pelo público presente no estúdio e, para protagonizarem o debate, são convidadas várias personalidades que concordam ou discordam da ideia em cima da mesa. Uma espécie de Prós e Contras, mas num formato mais polémico e menos atolhado de participantes.
Em Outubro do ano passado (sim, só agora é que descobri isto), o tema era A Igreja Católica é uma força de bem. O vídeo que se segue é o discurso que o actor britânico, Stephen Fry, fez contra a moção e eu só tenho três palavras para o descrever: brilhante, brilhante e brilhante!
E desculpem, mãe e pai, mas não há com legendas em português.
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sábado, 31 de outubro de 2009
Das coisas wiccanescas deste dia
Já que estamos no Dia das Bruxas e este é um blogue pagão, não é má ideia deixar aqui três breves notas sobre a celebração pré-cristã para esclarecimento dos curiosos ou dos que, tendo acesso a literatura wiccan e afins, acaba por absorver informação que deixa muito a desejar no rigor histórico.
1. O popularmente chamado Halloween terá, tanto quanto se sabe, raízes no celta Samhain, o festival que marcava o final do verão e o início da estação escura, porque menos abundante em luz solar. E friso a natureza celta da coisa: qualquer ideia de que os nórdicos também celebravam o Samhain é puro engano. Trata-se de uma falácia derivada da suposição - também ela errada - de que o calendário wiccan de oito festivais era uma coisa comum a todas as religiões pré-cristãs europeias. Os únicos povos germânicos que poderão ter celebrado o Samhain foram as tribos nos limites do mundo romano - onde a distinção entre celta e germânico era naturalmente mais diluída - e os anglos, jutos e saxões que migraram para as Ilhas Britânicas, situação que podia ter permitido um cruzamento de tradições. No resto do norte da Europa indo-europeia, conhece-se apenas a celebração das Noites de Inverno, já num contexto cultural diferente e com outros elementos associados.
2. A datação fixa do Samhain na noite de 31 de Outubro é resultado da adopção do calendário romano e do próprio processo de cristianização. A data do festival pré-cristão seria determinada pelo ciclo lunar e/ou pelo comportamentos animal (como as migrações, por exemplo), o que quer dizer que, na actual organização do nosso tempo, o Samhain original tanto podia calhar em meados de Outubro como um mês depois.
3. Correndo o risco de dizer o óbvio, a abóbora não fazia parte das tradições pré-cristãs associadas ao Samhain. Não porque houvesse algum tabu sobre a coisa, mas porque, pura e simplesmente, é um fruto oriundo do continente americano, o que quer dizer que foi preciso esperar pela colonização europeia da América do Norte no século XVI para as primeiras abóboras chegarem ao continente europeu. Os celtas não faziam os "Jack-o-Lanterns" dos nossos dias.
Dito isto, um bom Halloween para todos :)
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Ai esse fel...
Sobre esta entrevista a José Saramago - que continua a dar muito que falar - é-me impossível lê-la e não achar que é de uma pobreza aflitiva.
O raciocínio é desconexo e os argumentos são primários, mais parecendo uma colagem de clichés sobre a Bíblia. Que foi escrita durante mil anos, que a mente por detrás da coisa foi um deus cruel, invejoso e insuportável, que as Cruzadas foram um crime do Cristianismo e um exemplo de violência em nome de uma religião, puxa de Kung para dizer que as religiões afastam os homens e gosta de sugerir uma reforma penal do Inferno, que dizem que o castigo lá é eterno e, nós por cá, limitamo-nos a uns anos de prisão seguidos de reintegração na comunidade. Termina como uma nota à Nuno Lopes e pergunta porque é que Deus não vai trabalhar e fazer algo de útil para a sociedade, que o sacana não fez nada desde que se meteu a descansar no sétimo dia.
Saramago tem pleno direito de ser ateu e de argumentar como tal, mas não lhe ficava nada mal se o fizesse com menos rancor e mais racionalidade. Porque, bem vistas as coisas, há formas mais edificantes do que dizer que a Bíblia é um livro em muito desajustado da sociedade actual do que afirmar simplesmente que foi escrita durante um milénio, sem precisar, sem especificar, sem mostrar qualquer cnhecimento da coisa e pondo tudo no mesmo saco meramente com base num critério de idade. Já às Cruzadas, conjunto de guerras certamente deploráveis, facilmente se pode contrapor outros crimes hediondos e até bem mais recentes onde a motivação não foi religiosa, mas sim política ou etnica: as purgas soviéticas, as perseguições motivadas pelas crenças firmes da Revolução Cultural Chinesa ou o genocídio no Ruanda. Em nenhum destes casos houve uma classe sacerdotal a pregar guerra santa, mas todos eles mostram que qualquer ideologia, seja ela de que tipo for, pode gerar crimes hediondos. E se Hans Kung diz que as religiões afastam os homens, a História também tem exemplos do contrário; aliás, a História tem exemplos para tudo e é muito fácil chegar a determinadas conclusões quando se aponta o holofante para uns casos e se empurra outros para debaixo do tapete. As Cruzadas foram palco de inúmeros crimes? Sim! O cristianismo segregou populações inteiras - judeus e muçulmanos, nomeadamente - criando guetos dentro de cidades e sociedades inteiras? Sem dúvida! Mas também foi a Igreja a única a insituição que conseguiu ser um factor de unidade quando a autoridade imperial romana desvanecia e a Europa fragmentava-se em pequenos reinos.
E Saramago até pode achar que Deus é uma inutilidade - e é livre de pensar assim - mas convém que tenha um pouco de honestidade intelectual. Porque se está a falar de uma narrativa religiosa que é a Bíblia e pergunta o que fez Deus depois de descansar ao sétimo dia, das duas uma: ou o Nobel da Literatura é ignorante ou gosta de fingir que é. Senão pensemos no Dilúvio, no Exôdo, na conquista da Palestina e na própria vinda de Cristo. Independentemente de se ser ou não cristão, dentro da narrativa religiosa judaico-cristã o que não faltam são histórias de intervenção divina.
Se Saramago quer fazer humor, que o faça; se tem certas crenças ou opiniões e deseja manifestá-las publicamente, está no seu direito; se quer argumentar sobre alguma coisa, está à vontade. Mas é bom que o faça sem leviandades, desonestidade intelectual ou preconceitos que o põem ao mesmo nível de muita gente da alta hierarquia da Igreja Católica. Os extremos tocam-se, de facto...
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
Coisas de não-praticantes
Pior que um escritor que fala sobre um assunto com uma pobreza congrangedora de argumentos e do fundo dos seus rancores, só mesmo um deputado que defende a perda de cidadania por delito de opinião.
Mário David, representante nacional no Parlamento Europeu eleito pelo PSD, exortou José Saramago a prescindir do estatuto de cidadão português devido às declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia. Porquê? Porque, segundo o eurodeputado, "se a outorga do Prémio Nobel o deslumbrou, não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter."
Bom caractér define-se por acções, não pela mera militância em grupos, sejam eles políticos ou religiosos. O que quer dizer que, do mesmo modo que as palavras de Saramago revelam ignorância e inconsciência das coisas, as de Mário David reflectem a intolerância de quem acha que a manifestação de diferença de crenças - mesmo que intelectualmente pobre - é motivo para a perda de cidadania. Um ateu não é uma pessoa de bom caractér só por ser ateu; um homem religioso também não só por ter fé numa ou mais divindades. José Saramago não ficou bem na fotografia e Mário David também não; mais valia que o primeiro se tivesse limitado a falar do seu livro e o segundo tivesse ficado calado. Estranhamente, os dois extremos parecem tocar-se: à ignorância de quem fala de coisas que obviamente não conhece - ou finge não conhecer - responde a ignorância de quem diz não ter lido nem ter intenções de ler o livro de Saramago.
Para pôr isto noutros termos, não basta afirmar que se é crente: há que praticar! Alguém que diga isto ao "nem sequer sou católico praticante" eurodeputado Mário David. Ou ele pratica ou não pratica: se não pratica, não é católico. Um pouco como o bom caractér, não basta dizer que se milita num grupo: há que verter as palavras em acções. E os dois senhores deram provas de demérito e de caractér que deixam algo a desejar.
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segunda-feira, 1 de junho de 2009
Mês de Juno
As calendas - o primeiro dia de cada mês - eram, na Roma Antiga, consagradas a Juno. Em particular as de Junho, mês cujo nome indica ter sido baptizado em honra da deusa, que não era divindade de pouca importância.
Identificada com a etrusca Uni e com a grega Hera, tida como mulher de Júpiter e rainha celestial, assumia o título de Regina enquanto membro da tríade do Capitólio, a "cabeça" das sete colinas, e os de Interduca e Domiduca como deusa que conduzia a noiva para o casamento e para a nova casa, respectivamente. Como Juno Lucina era a da luz, no sentido de dar à luz, assumindo-se como protectora das mulheres no parto, e como Caprotina parece ter sido associada à fertilidade. Terá tido ainda um aspecto militar expresso pelos nomes Curitis, conforme registado por uma oração em que lhe era pedida protecção com a sua quadriga e escudo, e Populona, a do povo armado e mobilizado para a guerra.
O epíteto mais conhecido será o de Moneta, que poderá ter origem no latim mons (colina), mas que a tradição atribui à palavra monere (avisar), por referência a um episódio do ano 390 a.C. em que um ataque gaulês a Roma terá sido denunciado pela agitação de um grupo de gansos, a ave sagrada de Juno. Derrotados os invasores, ergueu-se um templo em agradecimento que, depois de 273 a.C., passou a ter por perto um edifício onde era cunhada moeda, palavra que terá tido origem precisamente em moneta, por associação ao local de culto.
A Juno, protectora do Estado, dos soldados e das mulheres, este blogue presta a sua homenagem, assinalando o primeiro dia do mês consagrado à deusa com esta entrada e um adoratio virtual. Salve Iuno Mater!
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
(Não) saber separar o civil do religioso
A respeito do projecto-lei sobre educação sexual e a famigerada distribuição de preservativos nas escolas - insistência da JS que às tantas vai sofrer o mesmo destino de outras "convicções" do passado recente - depois de a Igreja Católica se ter pronunciado contra, chegou agora a vez da comunidade muçulmana, cujo líder, segundo o Público, argumenta que "o Islão não permite relações sexuais antes do casamento e entende que o projecto as vai incentivar" (ver aqui). A opinião do sheikh David Munir não surpreende ninguém, mas não deixa de merecer uma chamada de atenção para a persistente dificuldade que muçulmanos e católicos continuam a ter sobre a distinção entre lei civil e lei religiosa.
Uma coisa são mandamentos islâmicos, outra coisa é a legislação do Estado. E não é por os primeiros proibirem uma coisa que a segunda vai proibi-la também. Por exemplo, não é por o Islão não permitir o consumo de carne de porco que a lei nacional vai passar a proibi-la nas escolas, pelo que o sheikh David Munir até pode achar que a distribuição de preservativos nas escolas vai incentivar a actividade sexual, mas não pode querer impedir a aprovação de documento legal do Estado com base apenas nos tabus de uma religião. Se o quer fazer, que o faça partindo de argumentos que não sejam tirados do Corão, porque o Estado não é uma Igreja e não tem a obrigação de reger-se por princípios religiosos. Se o sheikh Munir sustenta a sua opinião unicamente a partir das suas Escrituras Sagradas, pois então ele que as pregue no seio da e para a comunidade muçulmana em vez de tentar impôr aquilo que o Islão diz ao conjunto dos cidadãos nacionais; que se preocupe com o sexo antes do casamento entre os muçulmanos e não entre todos os portugueses, que a vida sexual de quem não segue o Islão dificilmente lhe diz respeito.
Nesse aspecto, até fiquei surpreendido com as Testemunhas de Jeová, que responderam à possibilidade de distribuição de preservativos nas escolas com indiferença, já que, dizem eles, os seus jovens são educados para a castidade independentemente da conduta alheia. Ou seja, vivem os seus preceitos religiosos sem necessidade de os imporem pela lei civil. E já era tempo de a comunidade muçulmana - tal como a católica - aprenderem a fazer o mesmo.
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
Um cão que foi santo
Ontem, enquanto andava a ler umas coisas e a saltar de página em página da wikipédia, descobri uma pequena curiosidade histórica de algum modo relacionada com os comentários do Z na entrada anterior. Trata-se do caso de São Guinefort, que não foi um homem, mas antes um cão. Sim, isso mesmo: um cão promovido a santo católico. Não oficialmente pela Igreja, é claro, mas pelo povo e com culto activo desde o século XIII até quase meados do século XX. Eis uma breve história.
A primeira referência escrita ao culto do cão Guinefort encontra-se num tratado teológico de um dominicano chamado Stephen de Bourbon, que morreu 1261. O texto contém uma vasta lista de bons e maus exemplos de conduta cristã como referência fácil para pregadores, sendo que um dos casos mencionados é o do culto de um cão perto da cidade francesa de Lyon. Enquanto ouvia a confissão de várias pessoas, Stephen deu por referências recorrentes a um São Guinefort a quem as mulheres pediam protecção para as crianças. Pensando tratar-se de um homem, descobriu mais tarde tratar-se de um cão e foi ao local de culto ver a coisa com os seus próprios olhos (e destruir o sítio como bom cristão que era, claro).
Stephen regista por escrito a lenda do santo, que conta como ele era o cão de um senhor rico e da sua mulher, que tinham um filho, e de como um dia, encontrando-se o casal ausente, uma grande serpente entrou no quarto da criança e foi Guinefort quem a defendeu, matando a cobra. Quando o pai chegou a casa e deparou-se com sangue em volta do berço e na boca do cão, matou-o julgando que ele tinha atacado a criança. Só depois perceberam que o bébé estava vivo e, olhando à volta, ele e a mulher repararam no corpo da serpente. Apercebendo-se do erro, o casal tomou o corpo de Guinefort e sepultou-o num poço que depois fecharam com pedras e à volta do qual plantaram árvores em sua memória. A mansão acabou por ser abandonada e ficar em ruínas, mas o povo da região começou a acorrer ao local, visitando o túmulo do cão para pedir para outras crianças a protecção que ele tinha dado ao filho dos seus donos. E eis como um canino foi popularmente elevado a santo durante sete séculos, que mesmo depois do monge dominicano destruir o local de culto as pessoas continuaram a acorrer ao sítio. Guinefort terá chegado até a ter uma igreja própria.
De dizer que há nesta história qualquer coisa de pré-cristão, seja o cão como espírito protector, o poço santificado ou o círculo de árvores em redor em modo de bosque sagrado. E nem estou a dizer que o culto tenha origens anteriores ao cristianismo, mas que pode ter originado numa mentalidade antiga que sobrevive à mudança de religião. Para quem quiser saber mais sobre São Guinefort, foi hoje mesmo lançado no Reino Unido um livro sobre o tema, já à venda na Amazon britânica.
Já agora, mais uma pequena curiosidade. São Roque, o mesmo que tem uma igreja ali para os lados do Elevador da Glória, era segundo a lenda um senhor originário de Montpellier e que foi auxiliado por um cão que, sem o conhecer, levava um pão ao santo todos os dias. Queres ver que...
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segunda-feira, 23 de março de 2009
A Minerva (v)
A encerrar a Quinquatria, eis um detalhe do estudo da Minerva de Paz por Elihu Vedder, obra em mosaico de 1896 presente na Biblioteca do Congresso Americano. Nas mãos da deusa (ver aqui), a lista dos trabalhos que estão sob a sua alçada.

Mille dea est operum. Si mereramus, studiis adsit amica nostris.
Ele é a deusa dos mil trabalhos. Se o merecermos, que ela seja amiga dos nossos intentos.
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sábado, 21 de março de 2009
A Minerva (iii)
Em Dia da Árvore e terceiro da Quinquatria, uma homenagem à oliveira com uma imagem ilustrativa de um mito fundacional de Atenas, já indicado pelo Z na caixa de comentários da entrada anterior:
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sexta-feira, 20 de março de 2009
A Minerva (ii)

Pallada nunc oremus. Qui bene placavit Pallada, doctus erit.
Oremos agora a Palas. Quem bem agradar a Palas, será douto.
Ovídeo, Fasti
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quinta-feira, 19 de março de 2009
A Minerva (i)

Dies admoniet et forti sacrificare deae, quod est illa nata Minerva die.
Este dia lembra-nos de sacrificar à deusa forte, porque aquele é o dia do nascimento de Minerva.
Ovídeo, Fasti
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Dia de Minerva
O dia de hoje é, para mim, especial. Não por ser Dia do Pai e não porque o meu não mereça o meu apreço. É-me especial porque, segundo reza a tradição da Roma antiga, o quinto dia sobre os idos de Março - que é hoje - assinala o aniversário da deusa Minerva e o início da Quinquatria, o festival em sua honra. Quer isto dizer que, para quem, como eu, é simultaneamente pagão romano e um académico (in the making que seja), o dia de hoje e os quatro que se seguem são de regozijo.
As origens da deusa romana são incertas. Por não ter um flamem, presume-se que não seja uma divindade arcaica entre os latinos, apontando-se em vez disso uma proveniência etrusca sob o nome de Mnerva ou Menerva. A dada altura identificada com a grega Atena, não será de desconsiderar a hipótese de ser essa, em última análise, a origem da deusa, chegada ou cruzada na Etruria por relações comerciais com a Helade e da Etruria para Roma antes de voltar a encontrar-se com a sua génese aquando dos estreitar de relações entre a urbe romana e as colónias gregas no sul de Itália. Mas seja qual for a origem de Minerva, o certo é que ela viria a ascender ao topo do panteão da religio ao integrar a tríade do Capitólio, lado a lado com Júpiter e Juno. Deusa das artes e do engenho que marca a personalidade de heróis como Ulisses, ela é a divindade virgem da guerra enquanto exercício de estratégia - logo, da razão - uma Senhora de profunda sabedoria e, dir-se-ia, protectora dos homens e mulheres que resistem e perduram pelo seu esforço e mérito. Por outras palavras, uma deusa de qualidades do espírito humano e, por isso mesmo, uma benfazeja da Humanidade.
E eu, que já nos meus tempos de petiz olhava para ela com fascínio (ainda hoje guardo em casa uma taça grega com uma imagem de Atena), vibro agora com o aniversário de Minerva. O dia começou, por isso, com um banho e uma oferenda de incenso, a que se juntará ainda o derramar de azeite nos ramos de uma oliveira e um conjunto de entradas neste blogue, a começar com esta e a prolongar-se durante os restantes quatro dias da Quinquatria. Mesmo sem poder realizar uma cerimónia romana apropriada, o dia de tão inclíta deusa não passa em claro.
Um adoratio a Minerva!
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sábado, 28 de fevereiro de 2009
Ágora
Estreia em Dezembro, em jeito de polémica. Porque um filme que retrata os motins cristãos de Alexandria e a morte de Hypatia vai certamente chocar com o imaginário dominante do Natal. E vai ser agradável ver alguma coisa que ultrapasse a representação beata do martírio cristão às mãos da lei romana. O outro lado da História, aquela do momento em que os perseguidos se convertem em perseguidores, tem sido sub-representada na sétima arte, não obstante o conter uma preciosa lição sobre a militância humana, seja ela religiosa, política ou de outra índole. Eis a trailler para abrir o apetite.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Memória Pagã 2009
Corria o ano de 391 quando o imperador Teodósio ordenou o encerramento de todos os templos pagãos. No dia 24 de Fevereiro desse mesmo ano, a chama da deusa Vesta foi apagada sem que fosse reacendida. Não sendo verdade que ela ardia ininterruptamente há séculos - a própria religio previa a renovação anual do fogo sagrado - certo é que é o momento foi o silenciar de um dos cultos mais antigos de Roma.
Era o resultado da ascensão ao poder do cristianismo e do sucesso da sua exigência de monopólio do sagrado. Coisa inédita na Europa antiga e, com ela, no mundo mediterrânico, onde o paranorama religioso era um de diversidade e de sincretismo. Se perseguições e supressão religiosa houve - e elas existiram - a sua motivação foi principalmente política. O caso dos druidas será, por ventura, o mais conhecido. Mas nem mesmo isso impediu que Epona, deusa celta dos cavalos, viesse a ter um templo em Roma. A novidade do cristianismo estava no credo como justificação para a extinção: não se propunha a conviver com os antigos deuses, mas a suprimi-los; não se contentava com um espaço partilhado, queria o monopólio do religioso. É uma consequência natural do monoteísmo estrito que, ao conceber apenas um deus, anula por exclusão de partes a crença em todos os outros. E isso resulta naquele pensamento binário simples, mas tantas vezes destrutivo: ou é preto ou é branco; ou estás comigo ou contra mim. Parafraseando de S. Paulo numa das suas cartas, não se pode comer ao mesmo tempo na mesa de Deus e dos demónios. Foi essa a mentalidade que suprimiu a diversidade religiosa europeia, incluindo dentro do próprio cristianismo, em luta contra as suas muitas "heresias".
Assim sendo, 24 de Fevereiro tem sido declarado por alguns como o Dia Europeu da Memória Pagã, porque nele extingiu-se a chama ancestral de Roma. E o fim de um dos mais antigos e elementares cultos romanos foi sintomático da supressão religiosa que assolava já a Europa e viria a generalizar-se pelo velho continente. Apagado o fogo de Vesta, apagava-se a chama do paganismo antigo; primeiro no mundo mediterrânico, depois no resto da Europa.
Neste dia, recorde-se então os perseguidos, os resistentes, os heróis e preste-se-lhes homenagem. Juliano será por ventura o exemplo mais conhecido, mas houve outros. Haja memória para que ela não morra e, resistindo ao passar do tempo, venha, no futuro, a permitir que o que foi extinto seja novamente uma realidade. Até porque já estivemos mais longe de o conseguir ;)
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
Enfim, santo!
Quase 580 anos depois da sua morte, Nuno Álvares Pereira vai ser oficialmente santo da religião que professou. Será por certo um dos processos de canonização mais longos da História, já que data do reinado de D. Duarte o primeiro pedido ao Vaticano de reconhecimento da santidade do Condestável. E eu sorrio, admito que alegre, por ver terminada tão longa jornada. Não porque seja católico ou sequer cristão, que não sou. Aliás, é-me indiferente que a coisa se deva a um olho "milagrosamente" curado ou que seja dúbio um santo de espada na mão. Os católicos que se preocupem com isso. Eu sorrio por antevisão de uma atenção renovada a tão ímpar figura da nossa História e que eu, no meu modo de ser pagão, há muito pus num altar.
É certo que Nuno Álvares Pereira não primou pelas virtudes da cidadania, humanismo ou tolerância. Foi um homem da guerra e de convicções religiosas fortes, com tudo o que isso implicava nos séculos XIV e XV. Mas o mérito dos seres humanos mede-se antes de mais pelo contexto do seu próprio tempo e só depois pelo que teve de atemporal. Se assim não fosse, bem que podiamos desprezar a democracia ateniense por ter tolerado a escravatura e discriminado as mulheres, John Locke por ter escrito que católicos e ateus não deviam ser tolerados e os Pais Fundadores dos Estados Unidos da América por não terem dado o direito de voto ao sexo feminino. Isto já para não falar em direitos dos homossexuais. Mas estes três exemplos históricos valem, respectivamente, pela noção de cidadania democrática, pela ideia da tolerância pela separação entre Estado e Igreja e pelo princípio da igualdade. Precisamente porque somos capazes de compreender o contexto do seu tempo e tomar o que tiveram de atemporal e de relevante para os nossos dias.
Assim sendo, que não se negue que Nuno Álvares Pereira foi um soldado que matou e decepou ou que foi um católico fervoroso que participou entusiasticamente na conquista de Ceuta, vista à época como cruzada meritória. Mas, reconhecido como fruto do seu tempo, reconheça-se também o seu valor enquanto líder, que foi capaz de transformar poucos em muitos. Pelo engenho, pela astúcia, pela audácia, pela devoção, pela força anímica ímpar que libertava e pela esperança que tinha, certo que embuída de fé. Dos pequenos fez grandes pelo esforço, crença e mérito. Pouco importa que tenha sido no campo de batalha, porque as virtudes estão lá na mesma e não é difícil transpô-las para qualquer outro contexto actual que consista num desafio à partida tido como perdido. Senão pensemos no quanto a audácia ou a esperança nos fazem falta no presente tempo do Portugal presente. E, é preciso não esquecê-lo, à escala do seu tempo e das suas convicções, Nuno Álvares Pereira soube manter integridade. Mesmo que queiremos (legitimamente) questionar os relatos de misericórdia, de contenção ou de escrúpulos no campo de batalha - que demonstram uma consciência activa - sobra ainda o seu exemplo de despojamento: quando era dos homens mais ricos e poderosos do país, renunciou a toda a sua fortuna para ingressar numa ordem religiosa e passar a mendigar nas ruas de Lisboa. Podemos até não atribuir valor à pobreza voluntária, mas vemos mérito na capacidade de sacrifício pacífico por algo em que se acredita.
De Nuno Álvares Pereira fica, então, a imagem das suas virtudes de líder e da sua capacidade de entrega. E, nesse sentido, será uma personagem histórica de relevância para um Portugal em crise, tal como disse Cavaco Silva (às vezes dá-me para concordar com ele). Que a memória do Condestável seja desprezada por ser uma figura medieval, em género de quem pergunta «de que é isso me serve no século XX?» ou «que problemas é que a sua canonização resolve?», é talvez um bom sintoma dos nossos males presentes. Séneca escreveu em tempos que, e passo a citar, "temos necessidade (...) de alguém por cujo carácter procuremos afinar o nosso: riscos tortos só se corrigem com a régua!" (Cartas a Lucílio, 11:10). Se nós, Portugueses, somos incapazes de encontrar modelos modernos e desprezamos os antigos, seja por incapacidade nossa ou por cinismo, então não será de espantar que tenhamos chegado ao estado actual de falta de convicção, de integridade e de elevação. Escasseiam homens como os da Revolução de 1383.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Parentalia
Na antiga religião romana, Fevereiro é tempo de purificação, uma tradição sobrevivente de quando o calendário tinha dez meses e o ano começava em Março. Assim sendo, era próprio (e continua a ser lógico) que o começo de um novo ciclo fosse antecedido pela devida limpeza e preparação. O processo de purificação tinha início a 13 de Fevereiro com a Parentalia, a celebração de nove dias aos antepassados.
Por ser uma festividade dedicada aos mortos, o período era marcado por tabus que levavam ao encerramento de templos, à proibição de casamentos e à exibição das insígnias dos magristrados. Era a manifestação da ideia de que a piedade, que consiste no cumprimento zeloso de deveres, implica alguma forma de estado impuro quando se trata do dever para com os defuntos, pelo que se exigia uma suspensão ou reserva que antecede o regresso a uma condição pura, que é física e não moral. Para pôr as coisas de um modo muito prosaico, trata-se de uma espécie de higiene num plano do religioso: o contacto com os mortos exige cuidados seguidos de limpeza. Apropriado, portanto, que tenha lugar no que em tempos foi a véspera de ano novo.
Para a celebração deste período, são próprias cerimónias privadas de homenagem aos antepassados, que, nos nossos dias, podem passar por coisas como o rever de vídeos ou fotografias de família, recordar de histórias e episódios de vida dos que já faleceram e oferendas de incenso, flores ou velas junto das suas fotografias. A 21 de Fevereiro, o último dia da Parentalia, as cerimónias tornavam-se públicas com a romaria aos cemitérios (como actualmente se faz em Novembro), onde a família tomava refeições junto dos túmulos, derramava libações ou deixava oferendas de flores. E atenção que, no seguimento do que já foi dito, o que é oferecido aos mortos não pode ser partilhado com os vivos.
O ciclo de purificação entre parentes terminava a 22 de Fevereiro com a Caristia ou Cara Cognatio, a festa dos vivos que originava novas refeições em família, desta feita em casa e com oferendas ao respectivo Lar.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Os frutos de Policarpo
Das palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa sobre os casamentos entre muçulmanos e católicas já pouco há a dizer. Sim, é verdade que são uniões que comportam riscos, tanto pela mentalidade religiosamente sancionada de alguns homens, como pela distinção fraca ou mesmo inexistente que se faz entre lei civil e lei religiosa em países de maioria islâmica. Também não me espanta que, como disse o Professor Moisés Espírito Santo em entrevista à RTP, o diálogo interreligioso seja difícil com a comunidade muçulmana, porque, para ser mais do que pancadinhas nas costas e gestos de boa-vontade, é preciso que se discuta doutrina e isso é terreno acidentado quando à mesa estão fés dogmáticas.
O criticável no discurso de D. José Policarpo está naquilo a que popularmente se podia chamar de «diz o roto ao nu». Como já foi apontado pelo Max, o que o estimado cardeal crítica nas crenças dos outros - o acreditarem que "a verdade deles é única e é toda" - é um mal que também abunda na alta hierarquia católica, tão claramente codificado no princípio Extra Ecclesiam Nulla Salus, que nega a "salvação" a todos os que, conhecendo os ensinamentos da Igreja, rejeitam-na. Depois há a questão da violência doméstica no maioritariamente católico Portugal a que o Pedro alude e que, julgo, o Cardeal Patriarca não irá justificar como sendo cometida por muçulmanos emigrados. Até porque essa é outra falha, o da demografia religiosa onde há nativos portugueses que se converteram ao islamismo e que não são naturais de um recanto do Médio Oriente. O "país deles", para muitos muçulmanos portugueses, é Portugal e só mesmo com muito nacional-umbiguismo católico é que se cai na esparradela de presumir que os lusos seguem naturalmente o catolicismo. Por fim, há que ter ainda em conta a diferença entre contexto religioso e contexto cultural, coisa que também costuma ser difícil para os lados da Igreja. Como refere o Marco, mais do que a religião que se segue, é por vezes a cultura que se vive que determina comportamentos e dita a forma da relação conjugal.
Assim sendo, o erro de D. José Policarpo foi o de ter generalizado sem antes ter feito sequer um pouco de autocrítica ou, para pôr isto noutros termos, não se ter olhado ao espelho antes de se meter a apontar o dedo indiscriminadamente. Nada de novo e que também não deixa de abundar por aqui ou aqui. Mas gostava ainda de acrescentar uma coisa que me parece pertinente.
Quando o Cardeal Patriarca deu o seu conselho matrimonial na Figueira da Foz, a Fátima Campos Ferreira questionou logo se aquilo não era uma forma de intolerância religiosa. Por muito que as palavras de D. José Policarpo tenham sido incorrectas - e foram! - suspeito que por detrás da pergunta da moderadora da tertúlia estava aquela paupérrima ideia de que tolerância religiosa implica a inêxistência de críticas e uma espécie de pézinhos de lã para não ofender ninguém. Ora, não há liberdade de expressão sem liberdade de criticar tudo o que está no espaço público - religiões incluídas - algo analisado com cuidado nesta e nesta entradas do De Rerum Natura, cuja leitura aconselha-se para se reflectir um pouco sobre o assunto. Para mais, e voltando ao início desta entrada, também não há diálogo interreligioso a sério e sem tabus se tivermos que andar em bicos dos pés para não beliscarmos dogmas alheios. Enquanto não tivermos a desinibição para dizer as coisas sem estarmos a olhar sobre o ombro, o que vamos ter vai precisamente no sentido oposto da convivência religiosa esclarecida e sincera: teremos as falinhas mansas da auto-censura (lembram-se das caricaturas de Maomé?), a declaração de discordância como sinónimo de intolerância e a ignorância como produto da mentalidade que não compreende nem quer compreender as crenças alheias por serem privadas.
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Ano Novo
Janeiro vem de Jano, que é o deus romano dos começos. Dele é o primeiro mês e o primeiro dia do ano, tal como nos sacrifícios Jano é o primeiro a receber oferendas, para que por ele tudo se faça como pela porta se entra em casa. Ele é Bifrons, o das duas faces, uma voltada para trás e outra para a frente, no limiar das coisas e de olhos postos em simultâneo no fim e no começo, na entrada e na saída. É clusivus, o que fecha as portas, e patulcius, o que as abre. Ele é Jano matutinus, o que preside à alvorada, e é pater, porque esteve no começo dos tempos tal como está no do ano, meses e dias. Ancião entre deuses e homens, a ele foi consagrado o mês que hoje começa.
Jano é uma divindade celestial adorada em ritu romano. O sacrifício deve ser conduzido de cabeça coberta e as oferendas devem ser entregues às chamas. A tradição escrita que chegou aos nossos dias refere o vinho e o incenso como ofertas propícias ao deus dos começos, juntamente com um pão básico, sem fermento e até sem sal, simples e primitivo como as coisas no início. Flores também são uma possibilidade, embora não sejam necessariamente atiradas ao fogo. Podem antes ser depositadas num altar ou transformadas em coroa que adorne uma imagem do deus, como se fez cá por casa, onde Jano vai estar o dia todo em lugar de destaque. O primeiro de Janeiro é também um dia auspicioso, logo, propício ao começo de projectos, contractos, acordos, planos e à declaração de desejos e votos. É de entrar no novo ano com um pé direito que Jano está um mãos largas todo o dia.
Para todos os leitores do Penates Publici, umas boas entradas e um dia portentoso, em jeito de boa sorte para um 2009 que se espera difícil. Salvé, Pai Jano!
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