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domingo, 26 de abril de 2009

Santo!

Popularmente já o era. Quase desde o momento da sua morte. Pela sua devoção mesmo em tempo de guerra e pelo seu despojamento já em dias de paz. Relatos de milagres é coisa que nunca faltou. Foi o nosso Galahad, um filho bastardo ao serviço de um grande rei numa época de crise e com o espiritual no horizonte. E Nuno Álvares Pereira terá crescido a ouvir as lendas arturianas, moldando a personalidade à imagem do cavaleiro do Graal, aspirando à sua integridade e devoção de modo a viver o ideal de cavalaria. A entrega à causa de Avis agigantou-o, fazendo-o transpirar força anímima e uma astúcia militar de quem aprendia e aplicava minuciosamente sem hesitar, de confiança posta na Providência como Galahad. E a entrega posterior à vida religiosa apenas lhe aumentou a aura de homem invulgar, de fagulha divina na pessoa de um cavaleiro-monge.

Hoje, passados mais de 500 anos sobre o primeiro pedido de canonização, o Santo Condestável ascende oficial e plenamente aos altares da religião que professou, renovando-se as atenções sobre tão inclita personagem a quem Fernando Pessoa chamou S. Portugal. No seu altar deixo uma oferenda no dia da sua consagração máxima.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Em Coimbra, em tempos idos

Assinala-se hoje os 624 anos sobre a aclamação de D. João I, a 6 de Abril de 1385, nas Cortes de Coimbra. Exceptuando a escolha de Afonso III, ordenada pelo Papa Inocêncio IV, o Mestre de Avis foi o primeiro chefe de Estado português a ser eleito, posto que o trono estava vago depois do falecimento de D. Fernando e da revolução de 1383, a mesma que expulsou da regência a rainha-viúva e fez letra morta do Tratado de Salvaterra de Magos. Sem herdeiro legítimo ou, pelo menos, incontestável, coube aos representantes da Nação a escolha de um novo monarca. E eles lá se reuniram - clero, nobreza e procuradores eleitos pelos concelhos - parece que oficialmente para discutirem a estratégia de guerra contra Castela, mas na prática para fazerem um novo rei. Ausente o partido de D. Beatriz, a única filha legítima de D. Fernando e mulher do soberano castelhano, a discussão fez-se entre os apoiantes dos filhos de Inês de Castro e os que estavam do lado do Mestre de Avis que, por força da argumentação de João das Regras e da espada de Nuno Álvares Pereira, seria unanimemente aclamado rei após um mês de debate.

Sendo certo que não foi uma eleição moderna de um regime moderno, a data não deixou de consagrar o princípio da soberania popular. Sem hiperboles! O que as Cortes de Coimbra afirmaram foi o papel dos governados na escolha dos governantes e a gestão comum daquilo que a todos dizia respeito. Foi a assunção da ideia de que é pela vontade popular que alguém acede ao poder e que é para a defesa do bem comum que esse poder é entregue, noções mais tarde consagradas pelo Infante D. Pedro no Livro da Virtuosa Benfeitoria. E tão importante foi a eleição de Coimbra de 1385 que o seu princípio viria a ser recordado nos séculos seguintes: na crise da regência de 1438-40, na crise dinástica de 1580, na revolução de 1640 e no debate que deu origem à primeira Constituição Portuguesa, a de 1822.

Não, a eleição de 1385 não foi de uma democracia moderna. Mas foi um marco na nossa História, que é um contínuo e não uma coisa feita de mudanças instantâneas. Quem defende a liberdade hoje e menospreza o passado, esquece-se que foi por conquistas anteriores que se chegou às actuais e, nesse processo, importa recordar os acontecimentos que marcaram o passo da História e que contribuiram para a modernidade. A reunião magna de Coimbra foi um desses momentos. Recordemo-lo!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Henrique, o (não) Navegador

Nasceu no Porto a 4 de Março de 1394, terceiro dos filhos de D. João I e de Filipa de Lencastre a chegarem à idade adulta. Figura mítica ou antes mitificada da nossa História, a ele atribui-se o génio criativo responsável pela gesta dos Descobrimentos, casto e virtuoso, de olhares direccionados apenas para o horizonte marítimo e rejeitando os luxos e prazeres terrenos, incluindo o carnal, já que nunca casou ou teve filhos, coisa que não lhe estava necessariamente vedada por ser Mestre da Ordem de Cristo. Dado que o seu lema era Talant de bien faire, é-se tentado a pensar que a ausência de descendência ficou a dever-se a uma falta de talento para a coisa ou ao Infante achar que a obra não iria sair bem feita. Detalhes da vida privada à parte, Henrique ficou conhecido como O Navegador e é-lhe atribuida ainda hoje a responsabilidade por uma escola de navegação localizada na ponta de Sagres.

Claro que do mito ao ser humano vai uma grande diferença, mais ainda no caso deste Infante, que foi o último dos filhos de D. João I a viver em terras lusas depois da tragédia de Alfarrobeira.

Henrique foi navegador de terra firme, que de barco nunca passou de Ceuta ou, quando muito, de Tanger e, no que se refere à dita Escola de Sagres como edifício de aprendizagem de marinheiros sentados a ouvir atentamente, já se sabe que provavelmente não terá existido. Pelo menos não naquele promontório e não no sentido de escola como estrutura física. Henrique também não foi uma espécie de hermita dedicado às Descobertas, mas juntou-lhes sempre a vontade de fazer guerra em Marrocos. Após a conquista de Ceuta em 1415, foi o Infante um dos defensores de uma nova incursão ao norte de África, desta feita para conquistar Tanger. E a expedição veio a concretizar-se em 1437, comandada em parte por Henrique, que não seguiu o planeado e teimou em não levantar o cerco atempadamente. Resultou daí a derrota portuguesa e o cativeiro do Infante D. Fernando, prisioneiro até que Ceuta fosse devolvida aos mouros. Em Portugal, recebida a notícia, o rei D. Duarte aconselha-se sobre o que fazer, se devolver a praça marroquina ou aceitar o martírio do irmão cujo resgate em dinheiro não se consegue. Em Ceuta, Henrique ignora a ordem para regressar a Lisboa, permanece isolado a lamber as feridas e escreve a defender a morte voluntária de Fernando contra a devolução do bastião luso em África.

Acresce ainda que o Infante não foi sequer o único mentor dos Descobrimentos, já que parte desse papel pertenceu ao seu irmão Pedro, o qual pôs em dúvida a utilidade da expedição a Tanger, terá defendido a entrega de Ceuta após a derrota de 1437 e argumentava contra a aposta na gesta marroquina, sorvedoro de homens e dinheiro, preferindo, em vez disso, o investimento nas descobertas, menos dadas a esforços militares e mais próprias à expansão comercial que equilibrasse as contas do Reino. E foi essa a aposta de Pedro quando foi feito regente de Portugal em 1440, pese embora ele nunca tenha conseguido que se abandonasse Ceuta, mas dinamizou a colonização das ilhas atlânticas e entregou a Henrique o monopólio da navegação e exploração para lá do Cabo Bojador. No pós-regência, Pedro viria a cair vítima de intrigas cortesãs e do seu próprio temperamento, morrendo em 1449 na Batalha de Alfarrobeira, que opôs o seu exército particular de Duque de Coimbra ao do seu sobrinho Afonso V e os grandes do Reino. Onde estava Henrique? Do lado da coroa e contra o irmão, ainda que tenha tentado (ou dito tentar) assumir o papel de mediador.

Assim foi que, mortos todos os filhos de D. João I à excepção de um, Henrique ficou como único responsável das Descobertas, colado à Coroa pela sua cumplicidade e com a oportunidade de ver renovada a guerra de Marrocos com a conquista de Alcácer Ceguer em 1458, que Afonso V era mais dado a cruzadas que a navegações. O Infante morreu a 13 de Novembro de 1460 com aura de mentor virtuoso. Olhando para os Paineis de S. Vicente de Fora, pergunte-se se, em vez da figura de chapelão ao centro, não será ele antes o cavaleiro púrpura de joelhos mais ao lado. É isso, pelo menos, o que defende esta teoria.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Em memória d'O De Boa Memória



D. João, Mestre de Avis (1364-1387)
Regedor e Defensor do Reino (1384-1385)
Décimo Rei de Portugal e do Algarve e o primeiro com o seu nome (1385-1433)
Chamado O Bom, O Grande, O de Boa Memória


Nasceu em Lisboa a 11 de Abril de 1357, venceu em Aljubarrota a 14 de Agosto de 1385 e morreu em Lisboa a 14 de Agosto de 1433. Partiu no mesmo dia em que se fez Rei no campo de batalha. A ele dedicou Fernando Pessoa o seguinte poema:

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.

Aljubarrota outra vez!



A 14 de Agosto de 1385, uns 6000 portugueses e ingleses venciam cerca de 30 000 castelhanos, franceses e outros portugueses no planalto de S. Jorge. A desvantagem numérica fazia prever o resultado oposto, mas vencemos! Vencemos com recurso ao engenho ponderado e calculado, à inteligência de saber maximizar as vantagens para minimizar as desvantagens e pela força da convicção e esperança. Provou-se, no final, a possibilidade da vitória impossível, num episódio que foi e continua a ser dos mais míticos da nossa História, presidido pelo Condestável de força anímica que o povo diz ser santo e pelo herói que foi primeiro Mestre, depois Messias e enfim Rei, vitorioso a 14 de Agosto de 1385 e falecido a 14 de Agosto de 1433. Como se a revolução da época não bastasse para alimentar o imaginário popular, eis a coincidência de datas! Por alguma coisa ficou D. João I conhecido como o Messias de Lisboa, O Bom, O Grande ou O de Boa Memória. E que bela memória a dos seus tempos, com a vontade popular a erguer nova dinastia, os feitos heróicos de Nuno Álvares Pereira, o verbo de João das Regras, Aljubarrota, Ceuta, o início das Descobertas, a Ínclita Geração, o valor do saber, do talento e da coragem!

Passados 623 anos, eis os valores a recuperar num país que descura o mérito e o esforço, a habilidade ponderada e calculada, a valentia e orgulho de quem, por uma causa e uma pátria, lança-se ao combate com as hipóteses contra si, mas confiante no plano que traçou. Venha uma Aljubarrota outra vez!