Segundo o Portal Galego Língua, foi proposta em França a criação de uma Academia da Língua Occitana, permitindo que se estabeleça uma ortografia comum para um idioma secular que, para além de se encontrar em declinio acentuado, atravessa dificuldades acrescidas por ter actualmente seis dialectos e cinco normas ortográficas.
O occitano, para quem não sabe, é uma língua nativa do sul de França. Dante terá escrito a respeito das línguas românicas que "nam alii oc, alii si, alii vero dicunt oil", ou seja , que uns dizem oc, outros si e outros ainda oil, classificando assim os idiomas descendentes do latim em três grupos conforme a sua palavra para sim. O galego-português, o catalão e o castelhano, juntamente com as línguas da península itálica, fazem naturalmente parte do do si, o norte de França do grupo do oil e o sul, como já foi dito, do conjunto do oc, vindo daí a expressão língua d'oc, ou seja, o occitano.
Foram as condições geográficas as responsáveis pelo aparecimento deste idioma e pelo seu conservadorismo latino. Se, por um lado, a proximidade com Itália e as rotas comerciais do Roão facilitaram uma colonização e romanização precoce da região a que actualmente chamamos Provença (do latim provincia), por outro, o facto de estar contida entre duas cadeias montanhosas - os Alpes e os Pirinéus - e de durante muito tempo ter sido limitada a norte por terrenos pantanosos, favoreceu o isolamento da denominada Occitania e a consequente preservação de um léxico latino muito maior do que na generalidade das línguas românicas. De resto, a centralidade geográfica no mundo mediterrânico abriu as portas para uma centralidade cultural notória na Idade Média. Já lá dizia o nosso El-Rei D. Dinis, numa das suas cantigas, Quer' eu em maneira de proençal fazer agora um cantar d' amor (texto integral aqui) e ainda hoje é comum referir-se ao occitano pelo nome de provençal, muito embora o termo deva ser usado apenas para a variante dialectal de Provença.
O declínio do occitano começa ainda no século XIV e de um modo semelhante ao do galego-português na Galiza cerca cem anos mais tarde: o poder crescente de uma autoridade real que usava outro idioma e a consequente perda de estatuto da língua nativa. Em 1539 foi decretado que apenas a langue d'oil (actual francês) podia ser usada na administração de toda a França e, posteriormente, duas revoluções contribuiram grandemente para a queda no número de falantes: primeiro a Francesa de 1789, que via as línguas regionais como uma ameaça à unidade nacional, seguida da Revolução Industrial, com a hegemonia da vida urbana, da grande cultura francesa e a desagregação de comunidades rurais que tinham preservado o occitano nas tradições orais. O século XIX assiste ainda um renascimento que culmina com um Prémio Nobel da Literatura atribuido em 1904 ao escritor occitano Frederic Mistral, mas a Primeira Guerra Mundial destrói parte dos frutos do seu trabalho.
A rápida perda de falantes continua a ser uma realidade, numa França de uma egalité ao ponto da uniformidade linguistico-cultural. Não existe nenhum censo detalhado a respeito da questão - tal é a importância que o assunto tem para as autoridades francesas - mas o mais recente (1999) aponta para cerca de 610.000 falantes nativos e coisa de um milhão de pessoas com alguma forma de contacto com o occitano. O maior esforço de recuperação da língua vem de associações culturais e grupos de activistas que acabaram por criar uma rede de escolas para ensinar occitano aos mais novos. Se lhe acrescer um orgão linguístico e norma ortográfica comuns em toda a Occitania, então talvez a língua d'oc ainda tenha hipóteses de sobreviver ao século XXI.
Tan m'abellis vostre cortes deman,
qu'ieu no me puesc ni voill a vos cobrire.
Passagem em occitano no canto XXVI d'O Purgatório de Dante.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Occitano vivo e unido?
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
Galiza em São Bento
O momento é histórico e não, não estou a exagerar: pela primeira vez, dois galegos falaram na Assembleia da República Portuguesa não em nome individual nem como representantes do Estado espanhol, mas como membros do movimento que na Galiza procura a reintegração do galego na lusofonia. E fizeram-no por convite oficial do parlamento português para participação num debate sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Na prática, é um reconhecimento político de que na Galiza fala-se o mesmo idioma que em Portugal e de que a Galiza tem um lugar no mundo lusófono. Que nunca se esqueça este dia, tanto a norte como a sul do rio Minho!
Para quem nunca ouviu português na sua forma galega, eis os vídeos das intervenções de Alexandre Banhos, presidente da Associaçom Galega da Língua, e de Ângelo Cristovão, presidente da Associação pró-Academia Galega da Língua Portuguesa. Que sirvam para esclarecer o ouvido e também a massa cinzenta no que à História e desafios actuais do galego-português diz respeito.
Via Portal Galego da Língua
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Ortografia em debate, Galiza presente
A Assembleia da República debate hoje o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa numa conferência e audição parlamentar a ter lugar na Sala do Senado. Presentes estarão académicos, escritores, professores e representantes de instituições e associações de promoção e defesa do idioma português.
À semelhança do que sucedeu nas reuniões que elaboraram o Acordo, o debate de hoje contará também com a participação de uma delegação galega, conforme convite oficial da Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura dirigido ao Conselho da Associaçom Galega da Língua, que, por sua vez, reuniu membros de outros colectivos da Galiza de modo a formar uma representação galega plural. A Assembleia da República terá ainda endereçado um convite à Associação pro-Academia Galega da Língua Portuguesa. Assim sendo, a delegação galega que estará hoje no parlamento português contará com representantes das já referidas duas associações, do Movimento de Defesa da Língua e ainda da Associação de Amizade Galiza-Portugal.
Sem sombra de dúvidas, um marco no reconhecimento português do estatuto lusófono da Galiza! Via Portal Galego da Língua.
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Um crepúsculo no Norte
Via PGL, fiquei a saber que o mundo ficou um pouco mais pobre na passada quarta-feira. Culturalmente mais pobre. Marie Smith Jones, indígena do Alasca, morreu aos 89 anos de idade depois de quase duas décadas de uma estranha solidão: Marie era desde há quinze anos a última falante de Eyak, uma das várias dezenas de línguas nativas do Alasca. Os seus sete filhos nunca a aprenderam, porque cresceram numa altura em que era considerado errado falar outro idioma que não o inglês, tal como na Europa em tempos (e, de várias formas, ainda hoje) foi tido como reprovável o uso do galego-português, do catalão, do basco, do occitano, do gaélico ou do bretão. Com Marie morreu uma língua e toda uma cultura que é preservada apenas nos trabalhos escritos que ela ajudou a redigir, incluindo um dicionário de Eyak. Às gerações futuras compete recuperar os sons e costumes que se apagaram dia 23 deste mês. Os da tribo de Marie e, possivelmente, os de outras tantas comunidades humanas: há quase vinte outras línguas nativas do Alasca em risco de extinção.
Aldeia Nativa de Eyak
Conselho de Preservação Eyak
Centro de Línguas Nativas do Alasca
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