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terça-feira, 10 de março de 2009

Cinco décadas

Já lá vão cinquenta anos desde a falhada revolta contra a ocupação chinesa do Tibete, cinco décadas de exílio do XIV Dalai Lama e meio século de sistemática menorização e minorização dos tibetanos no seu próprio país. São cinquenta anos de perseguições políticas e religiosas, de tortura e execuções, de saque e destruição de património cultural e ambiental e de imigração chinesa em massa, ao ponto de os tibetanos serem já uma minoria no seu próprio país. E nem sou eu quem o diz, basta consultar a informação fornecida pela Amnistia Internacional, incluindo esta notícia bem recente.



Sim, o Tibete antes da ocupação estava longe de ser um país ideal e sim, os períodos de independência de facto ao longo da sua História foram breves. Mas quem usa estes argumentos esquece-se que a natureza de um sistema político não é justificação para que ele seja sucedido por gritantes violações dos Direitos Humanos e que, se o critério para a autodeterminação fosse o precedente histórico, então Portugal devia exigir uma nova colonização de Angola ou do Brasil. Nunca um Estado livre foi construído com base na tortura e repressão e em algum momento todos os países tiveram a sua primeira experiência de independência.

O Tibete terá um dia de novo a sua!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Assim se vê o autismo do PC

No costumeiro exercício de fidelidade acrítica que naturalmente caracteriza uma formação política que ainda não entendeu o passado, não compreende o presente e silencia a oposição interna, o Partido Comunista Português, pelas palavras de Albano Nunes, reiterou hoje em Pequim o seu apoio à soberania chinesa no Tibete. O ilustre membro da comissão política e secretariado da referida força partidária fez questão de dizer que as críticas à administração chinesa do Tibete "não são uma questão de soberania, nem de direitos humanos, mas sim uma forma das potências imperialistas pressionarem a China, aproveitando o pretexto dos JO."

Portanto, os limites à liberdade religiosa, liberdade de associação, liberdade de expressão, a destruição ambiental, a proibição da língua tibetana fora dos limites da região administrativa (mas dentro das fronteiras do Tibete tradicional) e a transformação dos tibetanos numa minoria discriminada no seu próprio país são, a julgar pelas palavras de Albano Nunes, coisas menores e a preterir em nome de uma sociedade socialista. Fazer das violações dos Direitos Humanos uma questão central nas relações com a China é ceder a pressões imperialistas e não contribuir para um mundo mais justo e democrático. Esse ideal, pelos vistos, é pertença exclusiva do comunismo, de tal modo que implementá-lo - como Pequim supostamente faz - justifica a supressão da democracia e justiça...

Que o autismo impera no Comité Central não é novidade, mas nunca deixa de surpreender que o partido que tanto grita «Facismo nunca mais!» seja o mesmo que defende regimes ditatoriais que diferem do salazarismo apenas no perfil ideológico e não nos métodos repressivos. E a China é uma ditadura que se recusa a reconhecer os mesmos direitos, liberdades e garantias pelas quais os comunistas lutaram antes do 25 de Abril. De uma contradição destas, a única conclusão possível é a de que o Partido Comunista Português acha que a censura, o delito de opinião, a tortura, a supressão de direitos laborais e as perseguições religiosas não são reprováveis, são antes meios aceitáveis se executados por um regime comunista e em nome de um ideal comunista. Pelo menos é que o dá a entender a dualidade de critérios do PCP, que tão depressa se entrega de corpo e alma às celebrações do 25 de Abril, como se converte num aliado da ditadura chinesa. Tudo em nome de uma fidelidade ideológica cega e acéfala e do mais primário anti-americanismo que converte as violações dos Direitos Humanos em actos de valor relativo a quem os pratica: é um crime revoltante se forem os Estados Unidos, é a gloriosa construção de uma sociedade socialista se for a China (ou a Coreia do Norte ou Cuba).

Ironicamente, o autismo do PCP torna-o num estranho parceiro dos neoconservadores americanos, já que, à semelhança da actual administração norte-americana, o Partido Comunista é adepto da lógica de que quem não está a favor, só pode estar contra: ou se defende a ditadura chinesa ou é-se um imperialista. Há credibilidade que aguente isto?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Adiante com os Jogos!

Na esteira do que já disse o Tiago nesta entrada do Kontratempos e depois de ler esta outra pelo Pedro no Inbetween, são sábias as palavras do Dalai Lama quando ele apoia a realização dos Jogos Olímpicos na China. Não sei se será pelos mesmos motivos que eu e o Tiago, mas a tomada de posição é, não obstante, inteligente.

Basta a ver a atenção mediática e consequente pressão que se faz hoje sentir sobre líderes políticos e o Comité Olímpico Internacional. Há anos, há mesmo muitos anos que a causa tibetana não tem um momento destes, há demasiado tempo que não tinha este peso na agenda política e tudo isso deve-se ao facto da China ser o país anfitrião dos Jogos Olímpicos. Arrisco-me a dizer que não se via tamanho enfoque no comportamento da ditadura chinesa desde 1989, quando se deram os Protestos de Tiananmen e quando o actual Dalai Lama recebeu o Prémio Nobel da Paz. É por isso que boicotar os jogos seria um erro, seria tornar as coisas mais fáceis para Pequim com menos atletas em campo, menos jornalistas nas ruas e menos turistas nos estádios, logos menos hipóteses de novos protestos durante as competições e com as câmaras a filmarem. Do mesmo modo que foi um erro ter havido quem se tenha recusado a correr com a tocha olímpica como forma de protesto: melhor teria sido que tivessem participado e depois puxado de uma bandeira enquanto corriam. Não estou a ver os seguranças chineses da tocha a agredirem o atleta que seguisse com ela e, se o fizessem, seria mais um motivo de vergonha para a China. A ausência é a forma mais fácil de sair da agenda mediática, logo de anular um acréscimo de pressão. A excepção será talvez um boicote à cerimónia de abertura dos Jogos, conforme proposto pelo Parlamento Europeu em votação que teve lugar hoje: para Pequim, isso seria uma mensagem política em jeito de desafio, enquanto que para os media seria uma distração na cobertura do espectáculo propagandistico que se espera que a cerimónia seja. Afinal, ter os jornais e televisões a falarem de quem esteve ausente e de Direitos Humanos em vez da cor e brilho do evento não será certamente um dos objectivos do regime chinês.

Dito isto, há que refutar a ideia pacóvia de que desporto e política não se misturam; eu não queria estar a dizer o óbvio, mas a simplicidade de alguns a isso obriga. Os atletas que competem nos Jogos Olímpicos não o fazem por conta própria, não vão lá em nome individual, mas integram equipas nacionais. Estão, portanto, a representar Estados soberanos, comunidades políticas reconhecidas internacionalmente, sentimentos e consciências nacionais. Assim sendo, é perfeitamente infantil querer dissociar a prática desportiva olímpica de conjunturas e vicissitudes políticas. Elas existem e impôr-se-ão em maior ou menor grau consoante o peso mediático da coisa, o ruído dos protestos, a História e relações dos países participantes e as intenções dos diferentes regimes. Aliás, há que lembrá-lo, a China quis estes Jogos precisamente para legitimar o seu estatuto de potência mundial, para apresentar ao mundo uma imagem de si mesma respeitável e brilhante enquanto agente político e económico.

Não me venham, portanto, com fantasias de neutralidade desportiva, que onde quer que haja uma equipa nacional, há política internacional. Já na Grécia Antiga era assim, quanto mais hoje! Dizer que são coisas distintas é querer aplicar ao desporto a mesma amoralidade e ausência de juízo crítico que leva empresas e empresários a negociarem com a China com o argumento de que economia é uma coisa e Direitos Humanos outra e que os dois não se devem misturar. É a mentalidade do não sei nem quero saber, não conheço e não me comprometo. Aos atletas que preferem este conforto da consciência nula e andam por aí a defendê-lo em nome de uma suposta neutralidade desportiva, só tenho uma coisa a dizer: cresçam e apareçam!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Nota pró-tibetana



A União Budista Portuguesa, em conjunto com o Grupo de Apoio ao Tibete e a Casa da Cultura do Tibete, lançou a campanha Ontem por Timor, hoje pelo Tibete. Presentemente, está prevista uma vigilia em frente à Embaixada da China na próxima quarta-feira às 18:30 e está aberta uma petição a ser entregue à Assembleia da República, pedindo a condenação pelo parlamento português das violações dos Direitos Humanos no Tibete. De momento, o documento conta já com mais de duas mil assinaturas, pretendendo-se que chegue ao mínimo de quatro mil.

Mais informações e notícias frequentes em português aqui.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Dia do levantamento tibetano


O dia 10 de Março de 1959 foi a data em que um Tibete ocupado pelas tropas chineses revoltou-se para tentar sacudir a autoridade de Pequim. Falhado o levantamento, o XIV Dalai Lama fugiu para o exílio na India e estabeleceu o governo tibetano no exílio Dharamsala, onde ainda hoje reside e preside às instituições políticas e religiosas de um Tibete em diáspora.

De 1959 até hoje, 10 de Março tem-se transformado num dia de protesto contra a ocupação e as violações dos Direitos Humanos em território tibetano, onde as perseguições políticas, as restrições à prática religiosa, o uso de tortura, a destruição do património natural e a imigração em massa de chineses com vista a tornar os tibetanos uma minoria no seu próprio país tem ditado a lenta supressão e eliminação cultural do Tibete. Hoje mesmo, três mulheres ocidentais foram presas por protestarem contra uma nova via ferroviária que irá facilitar o processo de colonização do Titebe. Com os Jogos Olímpicos de Pequim a poucos meses de distância e com o aumento de pressão sobre o governo chinês para que honre as suas promessas relativas aos Direitos Humanos, começou hoje uma marcha de protesto desde Dharamsala até à fronteira indo-tibetana, em simultâneo com vários protestos noutras partes do mundo, incluindo Olimpia e Lisboa.


O blogue Tibet will be free mantém um relato actualizado dos protestos sobre um problema humanitário não muito diferente do que Timor enfrentava até há uns anos atrás.