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domingo, 12 de abril de 2009

Nota do dia (ii)

Ontem à noite, enquanto lia a biografia de El-Rei D. João I - que, aliás, celebrou ontem 652 sobre o seu nascimento - descobri que Portugal esteve à beira de ter um monarca chamado Fradique. Sim, isso: Fradique! Bonito nome, não? Era filho ilegítimo de Henrique II de Castela e esteve prometido em casamento a D. Beatriz, única filha e herdeira legítima do nosso D. Fernando. Felizmente ou não, o matrimónio nunca se chegou a realizar, que o soberano português era um pouco instável nesta coisa de acordos com o reino vizinho.

Não sei ao que achar mais piada, se à ideia de termos um D. Fradique, se ao quanto o republicanismo de terra-queimada da Primeira República teria adorado para alvo um rei cujo nome anda perto de soar a "fradeco".

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Na rua com... (i)

... Desobediência Civil de Henry David Thoreau. E quando digo que é de se ler na rua, é porque o texto apela ao activismo convicto alicerçado numa moralidade sólida. E porque as palavras de Thoreau inspiraram Gandhi e Luther King, dois líderes civis que fizeram as suas lutas tomando a rua com uma resistência que vencia não pela força das armas, mas por uma convicção inabalável.

Originalmente uma palestra de 1848 sobre a relação do indivíduo com o Governo Civil, proferida em Concordia, no Estado americano do Massachusetts, o texto viria a ser publicado no ano seguinte com o título Resistência ao Governo Civil e, postumamente, depois de 1862, com o nome com que é hoje conhecido. Foi redigido no contexto da luta contra a escravatura nos Estados Unidos da América e a guerra contra o México, que terminaria precisamente em 1848, mas as palavras de Thoreau continuaram a ecoar até ao século seguinte, em novos contextos de novas lutas pela dignidade humana. E, dir-se-ia, conservam uma essência ainda actual.

Página após página, transparece o vigor da convicção de um homem que reprovava a ausência de consciência dos soldados de uma guerra injusta e que via com náusea a moralidade de pacotilha de um país que se dizia a terra dos livres, mas onde um sexto da população era composto por escravos. Crítico de governantes que adiavam sucessivamente a abolição da escravatura e de uma sociedade que pactuava com o status quo, Henry Thoreau expressa a recusa da inércia generalizada, das boas intenções inconsequentes, da moral que enche a boca sem fazer mexer mais do que os lábios e questiona o valor do voto livre quando exercido como um gesto oco de transferência de responsabilidades, vazio de convicção e de dimensão ética. Por alguma coisa ele era um descrente no poder das maiorias. Censura a noção utilitarista do proveito como critério de avaliação de uma acção e contrapõe com o imperativo moral, o dever de fazer uma coisa por ela ser justa, custe o que custar, mesmo que sozinho e mesmo que custe a vida. Sugere até o direito de recusar a autoridade civil quando ela está alicerçada na injustiça, porque às leis iníquas pode-se obedecer, pode-se tentar mudá-las e obedecer até o conseguir ou pode-se simplesmente transgredi-las por fidelidade aos ditames da consciência. E é aqui que é feito o esboço da desobediência civil de onde Gandhi e King mais tarde beberiam: Thoreau não quis subsidiar um Estado beligerante e esclavagista e recusou-se a pagar impostos; foi preso por isso, mas descreve a experiência com agrado e apela outros a seguirem o seu exemplo. Pouco importa que sejam uma minoria desde que convicta e pronta a fazer valer a sua resistência pela força do exemplo moralmente integro e plenamente convicto. Nas palavras de Henry Thoreau, "não é tão importante que outros sejam tão bons quanto tu, mas que haja alguma bondade absoluta algures, pois isso irá fermentar toda a massa" e, acrecenta mais à frente no texto, "não importa quão pequeno um princípio possa parecer: o que está bem feito, está feito para sempre."

Um século mais tarde, Martin Luther King diria ter lido na Desobediência Civil a expressão clara da ideia de que a não-cooperação com o mal é um imperativo moral tão grande quanto a cooperação com o bem, que nenhum homem moralmente convicto pode alguma vez ajustar-se pacientemente à injustiça. À iniquidade da autoridade civil deve-se resistir e nunca acomodar!

Desconheço se existe uma tradução portuguesa do texto, mas há edições em língua inglesa (ver aqui), tal como há em francês, alemão e castelhano. Vale bem a pena uma leitura profunda e repetida sucessivas vezes, principalmente nestes tempos de crise económica, tensões sociais e desgaste de um regime cujos agentes carecem precisamente daquilo que Henry Thoreau mais tem para oferecer: integridade e elevação moral! É de tomar as ruas, meus caros, é de tomar as ruas...


Publicado numa versão ligeiramente expandida no Devaneios LGBT

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Livros em noite de Samhain

A pedido de muitas famílias (leia-se, do Pedro), segue-se uma lista de livros recomendados a principiantes nas lides da antiga religião romana. Não que eu seja um perito no assunto - muito longe disso! - mas, quando há vontade de ler e saber, todas as notas são dignas de troca, venham elas de experiência própria ou de recomendações de terceiros.

A tradução inglesa da Introdução à Religião Romana de John Scheid é uma excelente leitura para começar. Obedece a uma abordagem esquemática, com uma breve discussão da metodologia do estudo do tema, a apresentação geral de calendários, tipos e organização do espaço sagrado, rituais, grupos sacerdotais, História e uma análise particularmente importante de conceitos e ideias-chave da antiga religião romana, de modo a tornar bem claro o seu significado na Antiguidade Clássica. Deixo uma breve citação para abrir o apetite:

The principle by which it [religio romana] was ruled, in the historical period at least, was a civic rationality that guaranteed the liberty and dignity of its members both human and divine. That article of 'faith', virtually the only one known to Roman Religion, was constantly affirmed and defended by authorities and thinkers alike. (...) Relations with the gods were conducted under the sign of reason, not that of the irrational, in the same way as they were conducted between one citizen and another, or rather between clients and their patrons, but never between slaves and their masters. (p. 28)


Dividida em quatro partes - religiões da família, da cidade, do Império e o impacto do cristianismo - Os Deuses da Roma Antiga de Robert Turcan tem, não obstante, uma abordagem mais cronológica. O que não quer dizer que não seja também uma óptima introdução: são cerca de 160 páginas de informação concentrada com abundantes citações de autores antigos, uma descrição por vezes bastante detalhada de ritos diários e calendários e considerações sobre as crenças e mentalidade religiosa romana. Útil para qualquer principiante no tema, mais ainda se a pessoa não quiser investir logo na aquisição ou leitura de fontes primárias. Deixo também uma pequena citação:

There was nothing more specifically Roman than domestic worship; it was what immediately distinguished Roman religion, for example on Delos, from the Greek environment, in the case of the colonists who lived on the island. A man could not be evicted or have an attempt made on his life 'in the presence of the Lares, gods of the house' (Cic. Quint. 85). (p.14)




O Dicionário de Religião Romana de Lesley e Roy Adkins é uma ajuda indispensável quando uma pessoa se sente perdida no meio dos nomes de festivais e deuses ou tem curiosidade e quer saber mais nem que seja em modo compactado. São mais de duzentas páginas com centenas de entradas que cobrem desde divindades a templos, passando por celebrações, símbolos e personagens históricas, incluindo dos primeiros tempos do cristianismo. Algumas páginas complementam o texto com fotografias, ilustrações, registos arqueológicos e plantas de edifícios; tem ainda com um glossário e, é claro, uma preciosa bibliografia no final.





Last but not least, dois volumes de informação com o título de Religiões de Roma! O primeiro tomo ocupa-se da História dos diferentes cultos que compunham o sistema religioso romano, enquanto o segundo é uma recolha de excertos de numerosas fontes primárias e académicas. Mais uma vez, uma boa solução para principiantes que não se sintam ainda à vontade com os textos latinos, embora esse passo seja inevitável se se quer ter um bom conhecimento do tema. Isso e saber minimamente latim...

Para uma bibliografia mais detalhada, Pedro, podes sempre consultar esta lista de listas de leituras propostas pela Nova Roma. E já que estou com as mãos no teclado, um bom Samhain ;)

domingo, 28 de setembro de 2008

A nulidade socialista

Há milhares que são, em opinião, contra a escravatura e a guerra e que, no entanto, nada fazem para lhes pôr fim; que, dizendo-se filhos de Washington e Franklin, sentam-se com as suas mãos nos bolsos e dizem que não sabem o que fazer e nada fazem; que chegam a adiar a questão da liberdade em favor da do comércio livre e, calmamente, depois de jantar, lêem sobre as cotações de mercado juntamente com os últimos boletins da guerra no México e, quem sabe, adormecem com ambas. (...) Eles hesitam e arrependem-se e fazem até petições, mas nada fazem de concreto e com efeitos visíveis. (Fonte)

Houve em tempos um senhor chamado Henry David Thoreau, filósofo, naturalista e activista de causas civis que, em 1848, proferiu um discurso sobre as relações do indivíduo com o Estado. As palavras, inflamadas pelo contexto da Guerra Mexico-Americana e da luta anti-esclavagista, passaram pouco depois a documento publicado que recebeu primeiro o título de Resistência ao Governo Civil e, postumamente, Desobediência Civil. Nele, Henry Thoreau questiona a autoridade de um Estado assente na escravatura, a moralidade de uma sociedade civil conformada e a própria legitimidade da democracia quando assente em maiorias desprovidas de virtude.

O texto, embora publicado há mais de 150 anos, não deixa de ser rico em passagens que poderiam ser hoje usadas para expôr a cobardia política de um PS que se prepara para chumbar com disciplina de voto os projectos-lei do Bloco de Esquerda e dos Verdes sobre os casamentos homossexuais. Substitua-se as causas de então - oposição à escravatura e à guerra - pela da igualdade de direitos e, sem ser preciso muito esforço, o que disse Thoreau em 1848 serve para descrever a timidez que o PS revela nesta entrevista de Alberto Martins ao Público.

Os socialistas podem ser, em opinião, a favor dos direitos dos cidadãos homossexuais; podem invocar a tradição de esquerda do seu partido e, no caso da JS, avançar com campanhas de rua em que dizem que somos iguais a eles; podem, até, criticar e diferenciar-se de quem afirma que o casamento tem como finalidade a procriação. Mas, chegada a hora da verdade, fazem tábua rasa das palavras com que tanto enchem a boca: os mais velhos anunciam disciplina de voto como se dentro do partido a questão não estivesse sequer em cima da mesa, enquanto os mais novos deixam cair o projecto pelo qual fizeram campanha. Sem coragem, sem convicções e sem um mínimo de massa crítica que se concretize em algo mais do que comunicados. Fala mais alto o eleitoralismo conservador, a estratégia amoral e o carreirismo político desprovido de valores, tão evidente numa JS que, pelo "crime" de desobediência às ordens vindas do Largo do Rato, não se quer ver privada de lugares elegíveis nas listas de deputados às legislativas de 2009. O que é isto senão o sacrifício dos ideais no altar da carreira política? O que é isto senão a busca ou preservação do poder como um fim em si mesmo e não como instrumento de trabalho pelo bem comum?

Os socialistas dizem que é tudo uma questão de oportunidade, a começar pelo próprio Primeiro-Ministro, que se recusa a debater o tema por não estar na sua agenda política, seguido de perto por uma caixa de ressonância que dá pelo nome de grupo parlamentar e que se prepara para descer ao nível do Partido Popular ao votar contra os casamentos homossexuais em uníssimo. Se o mal da coisa fosse o timing, o nomal seria que existisse liberdade de voto por a proposta do Bloco de Esquerda e dos Verdes não se opôr aos princípios do partido. Existindo, no entanto, a imposição de uma votação negativa, só se poderá concluir uma de duas coisas: ou a questão é de fundo ou a maioria dos deputados do PS é a favor dos casamentos homossexuais. Em qualquer dos casos, fica revelada a fraqueza de ideais entre os socialistas: se o problema com a igualdade de direitos é de fundo, então os valores de esquerda são nulos; se o mal é a existência de uma maioria, fica à vista a facilidade com que o PS sacrifica os seus ideais em nome de prioridades eleitoralistas.

Satisfeitos ficam os que se opõem aos casamentos homossexuais pelo anti-debate que a própria maioria parlamentar proporciona e felizes estarão os socialistas incapazes que, não tendo coragem ou sequer convicção para se comprometerem com uma causa que vá para além do seu auto-engradecimento, irão certamente dormir em paz sob a sombra de uma votação imposta, sem terem que se preocupar em fazer ou deixar de fazer.


Publicado em simultâneo no Devaneios LGBT

domingo, 27 de abril de 2008

Estava livre e não perdido

Já conhecia a prática há alguns anos, desde o dia em que vi uma reportagem da SIC sobre o assunto. Também já tinha tido em mãos um livro livre, não perdido nem esquecido, mas deixado num local público à espera de um novo dono. Foi na Suécia, nos corredores da Universidade de Uppsala, mas quem ficou com ele - e, pressuponho, quem mais tarde o libertou - foi uma colega minha.

A esta prática chama-se bookcrossing que, muito basicamente, consiste em ler um livro e deixá-lo num local público para que outros o encontrem, leiam e, se quiserem, voltem a deixá-lo onde possa ser encontrado por alguém que repita o processo. E não se pense que isto é feito sem qualquer tipo de organização. Indo a este sítio, é possível atribuir a cada livro um número de identificação único que deverá constar numa etiqueta que tem que ser colada na capa ou primeira página, de modo a que quem o encontre saiba que ele não está perdido, mas foi propositadamente deixado no local. A partir do mesmo sítio na internet, é possível contactar com outros adeptos da prática e seguir o percurso de cada um dos livros registados por esse país ou mundo fora. No fundo, trata-se de criar uma grande biblioteca global, sem sede ou local de leitura fixos.

Ontem à noite, três amigos meus deram de caras com dois livros que julgaram perdidos na rua Dom Maur Cocheril, Alcobaça. Quando lhes expliquei o que era o bookcrossing, uma amiga minha ficou com um e eu fiquei com o outro (o da fotografia). Vou lê-lo e libertá-lo algures, às tantas na companhia de um livro novo que hei-de comprar, registar e juntar à biblioteca global do bookcrossing.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

No parque com... (i)

De modo a elevar um pouco a qualidade deste blogue, abro hoje uma senda de entradas com sugestões de leitura. Não serão certamente as mais literariamente correctas ou prestigiadas, uma vez que os meus hábitos livrescos são por regra compostos por bibliografia académica, fontes primárias da Antiguidade e Idade Média e humor, muito humor britânico. E serão desses géneros as sugestões publicadas aqui neste meu abertamente gay e mui pagão "estaminé" blogosférico. As entradas terão todas como título a referência a locais onde se pode ler um livro, neste caso no parque com...

...Good Omens, a história dos dias que antecedem o Fim do Mundo. Segundo as Boas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, uma bruxa inglesa morta na fogueira no século XVII, o Apocalipse está marcado para o próximo sábado à tarde, mais concretamente depois do chá. O Anticristo nasce onze anos antes num hospital gerido pela Ordem Cavaqueira de São Beryl, cujas freiras são obrigadas a tagarelar continuamente excepto às terças-feiras à tarde durante meia hora. A irmã Maria Loquacious estava encarregue de entregar o filho do Diabo aos pais adoptivos, mas um pequeno percalço originou uma troca de bébés e o Príncipe das Trevas acaba por crescer não na casa de um diplomata americano no Reino Unido, mas no seio de uma família rural inglesa. Enquanto isso, Aziraphale e Crowley, respectivamente o anjo que guardava o Éden e o demónio que deu a maçã a Eva, são encarregues pelos seus senhores de encaminharem os acontecimentos no sentido do Armagedão e da Batalha Final. Habituados que estavam, no entanto, aos confortos terrenos e com as suas vidas encaminhadas - o anjo com a sua livraria e o demónio com o seu adorado Bentley - os dois seres sobrenaturais, já amigos de longa data, recusam-se a abrir mão das suas rotinas e decidem malograr os planos dos seus patrões. Assim sendo, tratam de influenciar em simultâneo a educação do jovem Anticristo, na esperança de que ele nunca se consiga decidir entre o Bem e o Mal. Ou a educação de quem eles julgavam ser o Anticristo...

No seu décimo primeiro aniversário, estava previsto que o Rebento de Satã recebesse um presente do seu pai, um cão do Inferno cuja missão seria guardar e proteger o Príncipe das Trevas. Aziraphale e Crowley esperavam pacientemente à porta da casa do diplomata americano, mas, para seu espanto, a criatura demoniaca não apareceu. O alarme foi dado, o Anticristo estava desaparecido e ninguém sabia o seu paradeiro! Apenas o dito cão teria dado com ele, mas não era de esperar que ele voltasse ao Inferno para dar indicações. O que se segue é a busca pelo Filho do Diabo enquanto a tarde de sábado se aproxima e os sinais do Fim do Mundo vão-se acumulando: americanos, tibetanos, atlantes, extraterrestres e outras estranhas criaturas dos últimos dias. Pelo meio surge a única descendente viva de Agnes Nutter, o último caçador de bruxas de Inglaterra, o seu mais recente e único recruta, a sua senhoria e os Quatro Motoqueiros do Apocalipse. Sim, motoqueiros, que o tempo dos cavalos já lá vai. E a Pestilência reformou-se, mais precisamente em 1936, desgostosa com a penincelina e para ser substituida pela Poluição.

Good Omens é da autoria de Terry Pratchett e Neil Gaiman. Segundo as suas curtas biografias na página inicial, o primeiro gosta de pessoas que lhe oferecem batidos de banana, o segundo nem por isso, mas sente-se lisonjeado quando os fãs lhe enviam dinheiro, de preferência dólares. Não há, pelo menos que eu saiba, qualquer tradução portuguesa do livro.