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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Memória Pagã 2009

Corria o ano de 391 quando o imperador Teodósio ordenou o encerramento de todos os templos pagãos. No dia 24 de Fevereiro desse mesmo ano, a chama da deusa Vesta foi apagada sem que fosse reacendida. Não sendo verdade que ela ardia ininterruptamente há séculos - a própria religio previa a renovação anual do fogo sagrado - certo é que é o momento foi o silenciar de um dos cultos mais antigos de Roma.

Era o resultado da ascensão ao poder do cristianismo e do sucesso da sua exigência de monopólio do sagrado. Coisa inédita na Europa antiga e, com ela, no mundo mediterrânico, onde o paranorama religioso era um de diversidade e de sincretismo. Se perseguições e supressão religiosa houve - e elas existiram - a sua motivação foi principalmente política. O caso dos druidas será, por ventura, o mais conhecido. Mas nem mesmo isso impediu que Epona, deusa celta dos cavalos, viesse a ter um templo em Roma. A novidade do cristianismo estava no credo como justificação para a extinção: não se propunha a conviver com os antigos deuses, mas a suprimi-los; não se contentava com um espaço partilhado, queria o monopólio do religioso. É uma consequência natural do monoteísmo estrito que, ao conceber apenas um deus, anula por exclusão de partes a crença em todos os outros. E isso resulta naquele pensamento binário simples, mas tantas vezes destrutivo: ou é preto ou é branco; ou estás comigo ou contra mim. Parafraseando de S. Paulo numa das suas cartas, não se pode comer ao mesmo tempo na mesa de Deus e dos demónios. Foi essa a mentalidade que suprimiu a diversidade religiosa europeia, incluindo dentro do próprio cristianismo, em luta contra as suas muitas "heresias".

Assim sendo, 24 de Fevereiro tem sido declarado por alguns como o Dia Europeu da Memória Pagã, porque nele extingiu-se a chama ancestral de Roma. E o fim de um dos mais antigos e elementares cultos romanos foi sintomático da supressão religiosa que assolava já a Europa e viria a generalizar-se pelo velho continente. Apagado o fogo de Vesta, apagava-se a chama do paganismo antigo; primeiro no mundo mediterrânico, depois no resto da Europa.

Neste dia, recorde-se então os perseguidos, os resistentes, os heróis e preste-se-lhes homenagem. Juliano será por ventura o exemplo mais conhecido, mas houve outros. Haja memória para que ela não morra e, resistindo ao passar do tempo, venha, no futuro, a permitir que o que foi extinto seja novamente uma realidade. Até porque já estivemos mais longe de o conseguir ;)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Renascimento a oriente?

Via The Wild Hunt, eis duas notícias de (possíveis) novos tempos para antigos locais de culto pré-cristão: a descoberta do mais bem conservado templo à Grande Mãe Cybele e os planos de reconstrução do Templo de Artémis de Éfeso!

O primeiro encontra-se próximo da localidade de Balchik, na Bulgária, e foi encontrado em 2007 graças a trabalhos arqueológicos de emergência, motivados pela construção de um hotel. As primeiras escavações denunciaram logo que se estava perante um monumento de raro valor, à medida que estátuas e estruturas eram desenterradas. Segundo os académicos, para além de ser o mais bem preservado edifício helénico nos balcãs, o templo aparenta ser também o mais bem conservado local de culto da Grande Mãe em toda a Europa! E não será demais acrescentar que isso significa muito, mas mesmo muito num panorama de vestígios muitas vezes residuais. Basta lembrar as ruínas do templo à mesma divindade no Palatino em Roma ou, mais próximo de nós, as supostas fundações descobertas após o terramoto de Lisboa de 1755 junto à Igreja da Madalena, onde ainda hoje a parede exterior de um edifício próximo ostenta ex-votos de adoradores de Cybele. Que se tenha descoberto uma estrutura bem conservada é, de facto, um achado raro, mais ainda quando os arqueólogos dizem que ele pode ser integralmemte restaurado!

O único problema que se põe são as intenções do proprietário do terreno que, depois de tomar conhecimento do que tinha em mãos, pôs o local à venda por mais de 600 mil euros depois de a autarquia já ter gasto uma quantia avultada para assegurar a preservação dos achados. A menos que o proprietário desça o valor pedido ou o Estado bulgaro intervenha (ou alguém de carteia cheia dê uma mãozinha), pode estar em risco o mais bem preservado templo da Grande Mãe.

Numa nota mais animadora, na vizinha Turquia surgiu um projecto de reconstrução integral do Templo da Éfeso à deusa Artemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Sim, integral! E não apenas uma mera cópia, mas um novo Artemision. A notícia detalhada está preto no branco aqui para quem se quiser deliciar: a 1500 metros das ruínas do último templo, surgirá um novo também ele com 120 colunas, 25 mil metros cúbicos de mármore e o bónus de ter estátuas da autoria de alguns dos melhores escultores do mundo. Um digno sucessor do edifício destruído no século V.

Alguém (não) consegue imaginar o ressurgimento em poucas décadas de dois focos de peregrinação pagã em território europeu? E se a ideia pega e o exemplo for seguido? Assistiremos algum dia à reconstrução do templo de Cybele no Palatino? Aos de Saturno, Concórdia e Castor e Pollux no Fórum Romano? Atrevo-me a sonhar com uma nova Casa das Vestais?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Recordar e honrar

Velho continente e diverso que é, a Europa assistiu ao longo da sua História a incontáveis perseguições e assassinatos motivados por choques culturais e ideológicos. Ainda isso é actual e nenhum corpo de crenças, sejam elas religiosas ou políticas, pode afirmar ter as mãos limpas ou estar livre de perigo, porque toda a ideologia é permeável a extremismos, seja por culpa própria ou por influência de terceiros e mesmo no caso da mais pacífica das ideias. É coisa a ter em mente quando, entre outras coisas, se honra a memória de acções e pessoas passadas, que é o objectivo deste texto.

A 24 de Fevereiro de 391, por decreto do imperador Teodósio I, a chama sagrada de Vesta foi extinta e o grupo de virgens que a mantinha dissolvido. Era o fim de um culto que remontava aos primeiros tempos da cidade de Roma e um pronúncio do fim eminente do paganismo antigo. Pouco tempo depois, o encerramento e destruição de templos pagãos recebeu o aval imperial, a prática pagã era declarada ilícita e, em 393, realizavam-se os últimos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Para a Igreja Católica foram dias de triunfo; para a Europa foi a maior supressão cultural até então e uma das maiores da sua História.

É certo que no passado outras religiões haviam-se extinto, mas fora, regra geral, resultado da lenta transferência de devoções ou de processos sincréticos e não por imposição legal. A vivência religiosa da Europa até então havia sido principalmente uma de diversidade e coexistência de diferentes cultos, crenças e escolas de pensamento, algumas com centenas de anos, outras mais recentes. Havia por certo extremos opostos que recusavam misturas entre diferentes tradições, mas também pontos de contacto entre elas, tanto por influência mútua como por sincretismo. O panorama religioso europeu era, assim, dinâmico e extremamente diverso. Se perseguições houve no perído pagão - e elas existiram - o seu motivo radicava não em questões de fé, mas em matérias rituais e de autoridade política. Isto é, o que ditava a proibição ou limitação de uma religião não eram as suas crenças, mas o efeito destas na ordem pública. Não estava em causa a mitologia, o quê ou quem é que era adorado, mas como. A pedra de toque do paganismo antigo era a ortopraxia, não a ortodoxia: a autoridade era exercida sobre o aspecto prático, ou seja, a forma ritual e a preservação da paz pública, não sobre o valor das crenças individuais. Quando o Senado romano proibiu a Bacanália em 186 a.c. não foi por considerar herético o culto do deus do vinho, mas por denúncias de crimes e conspirações políticas que teriam lugar nas festividades. Quando Roma perseguiu os druidas não foi por eles não adorarem os deuses latinos, mas por questionarem a autoridade política romana. De tal modo que, uma vez conquistadas as tribos celtas, os cultos das suas divindades persistiram, isolados ou sincreticamente, romanizados em formas rituais e com praticantes nativos e romanos. O exemplo máximo será o de Epona, deusa celta dos cavalos cuja popularidade levou a que fosse adorada dentro da própria cidade de Roma. A romanitas não só era, em princípio, tolerante para com religiões alheias, como por vezes acolhia como seus os deuses de outros povos. Cybele, Apolo e Isis foram outros três exemplos disso mesmo.

Nada disto torna mais aceitável a perseguição movida contra os primeiros cristãos ou outras minorias, mas entender a dinâmica do paganismo antigo permite-nos perceber a dimensão do que sucedeu quando o cristianismo passou a ditar as regras: pela primeira vez, uma religião reclamava para si o monopólio do divino e impunha-o pela força, opondo-se a todos os que rejeitassem uma determinada ortodoxia. A ofensa passava a estar na diferença de fé e as perseguições por isso movidas ditaram o fim da diversidade religiosa europeia, suprimindo séculos de cultos e crenças múltiplas da foz do Tejo ao Mar Negro, das margens do Nilo à muralha de Adriano. Foi preciso esperar mais de mil anos até a Europa quebrar o monopólio imposto e caminhar, uma vez mais, para a sua natureza diversa.

Com isto em mente, em Agosto de 2006, a Federazione Pagana lançou o projecto do Dia Europeu da Memória Pagã para honrar os esforços dos que lutaram pela sobrevivência do paganismo antigo e reunir numa evocação comum os pagãos actuais que trabalham pela reconstrução dos cultos antigos no mundo moderno. A data escolhida? O 24 de Fevereiro, o dia em que se extinguiu o fogo de Vesta, sintoma da extinção das religiões antigas, tal como sintoma da sua recuperação é o reacender de chamas sagradas nos dias de hoje. Não que eu concorde com todas as palavras de todos os que dão vida à iniciativa ou que esteja com todos eles em todas as causas. Mas no Dia Europeu da Memória Pagã como noutras coisas há que ter o sentido de ortopraxia do paganismo antigo: unidade na prática, diversidade nas ideias. Honre-se a memória de Juliano, dos senadores que defenderam o altar da Vitória, dos revoltosos que lutaram pela reabertura dos templos, dos que morreram a defênde-los e dos que, ocultos, tentaram perpetuar a sua herança espiritual. E aumente-se o mérito dos seus esforços pelo trabalho dos que hoje reconstroem ou se inspiram nas religiões do passado para as tornarem uma parte viva do mundo moderno.

Pax Deorum!