Há uns anos atrás, a Igreja Sueca enviou uma delegação à Marcha do Orgulho LGBT de Estocolmo. Sim, leram bem: uma instituição religiosa participou naquele evento que, em Portugal, ainda desperta nojo e motiva rejeição em larga escala, a começar no seio da própria comunidade homo e bissexual. Não por lá a marcha ser uma coisa "limpa" e "séria", que são eufemismos para a ausência de bichas e travestis, mas porque na Suécia parece haver maior facilidade em compreender que a coisa é feita por quem participa e não por quem fica de fora a criticar: se não te sentes representado pela Marcha, faz-te representar e participa! E a Igreja Sueca parece ter percebido isso.
Em 2006, quando eu ainda estava por terras suecas, já se ouvia falar aqui e ali da possibilidade de serem abençoados casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo sem, no entanto, ser realizada uma cerimnónia de casamento de facto. Falei do assunto a uma sueca que morava comigo e ela puxa de uma história de família. Ela tinha um irmão mais novo - 16 ou 17 anos - que tinha assumido a sua homossexualidade perante a família uns anos antes. Dos pais nada de rejeição e, da parte do irmão mais novo, veio o gesto de meter o mano num guarda-roupa, fechar e abrir as portas e gritar: agora estás fora do armário! Pouco tempo depois, o rapaz decidiu afastar-se da paróquia local, em protesto contra a homofobia de algumas pessoas dentro da Igreja Sueca. A reacção? Os outros paroquianos convidaram-no a voltar e a expressar a sua sexualidade sem receios; que respeitavam a orientação dele e rejeitavam a discriminação defendida por outros. E nada disto com o intuito de o "curar", mas sim de o acolher como ele era, sem preconceitos.
Em 2009, a Igreja Sueca anuncia que vai realizar casamentos religiosos entre pessoas do mesmo sexo. Surpresa? Para mim, nenhuma! A decisão já andava a ser preparada há algum tempo. É a afirmação da igualdade como um príncipio que não conhece fé, tal como não conhece raça ou sexo e o reconhecimento da dignidade pública das relações homossexuais no interior de uma das grandes religiões monoteístas, precisamente a origem de muita da oposição aos direitos dos homossexuais, bissexuais e transgéneros. É um marco, tal como foi a sagração de um bispo abertamente gay há uns anos atrás nos Estados Unidos da América.
O contraste entre nós e eles não podia ser maior. De um lado, aquele país nórdico onde até uma Igreja já acolhe sem "tibiezas" casais de pessoas do mesmo sexo; do outro, este Portugal há beira-mar plantado onde o casamento civil sem que o catolicismo meta o bedelho já é uma luta e pêras. Que sirva de lição a muitos: a Suécia, que também foi afectada pela crise económica e defronta-se com a necessidade de reforma do Estado Social, não acha que isso impeça avanços na agenda LGBT. Nem é um país à beira do colapso social ou civilizacional por reconhecer a dignidade pública dos homossexuais. A Suécia, que é uma monarquia com um governo de direita, dá lições de igualdade a um Portugal republicano com um governo socialista. Que saudades das terras suecas!
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009
It's Sweden, baby!
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quarta-feira, 1 de julho de 2009
Gafe do Público
Há uns anos atrás, aquando da famigerada Cimeira da Lages, dei com a CNN a identificar Durão Barroso como "Presidente de Portugal". Pensei tratar-se de um produto daquela já tão famosa ignorância americana sobre a geografia do mundo, extensível ao conhecimento dos tipos de regime de cada um dos países. Hoje, no entanto, descobri que o mesmo mal também afecta o jornal Público, que nesta notícia faz referência a um suposto "Presidente da Suécia". E não é um lapso isolado: a coisa é dita três vezes, incluindo nas letras gordas do título.
Que eu saiba, a Suécia (ainda) é uma monarquia e Fredrik Reinfeldt é apenas Primeiro-Ministro. Um detalhe menor? Sim! Um detalhe menor de cultura geral sobre um país comunitário, não um Estado longínquo do qual pouco se sabe. E, em caso de dúvida, trata-se de um pormenor facilmente verificável na página oficial do governo sueco. Confirmar informação que está à mão de semear antes de publicar coisas não custa nada e evita erros que, não obstante o serem pequenos, não têm grandes desculpas que os justifiquem.
Adenda: a notícia foi corrigida às 11:55 do próprio dia. Há que apreciar a eficácia do Público.
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domingo, 21 de junho de 2009
Solstício de Verão
Para ser preciso, o solstício propriamente dito foi às 05:46. Ou assim o indica o Observatório Astronómico de Lisboa nesta tabela. Mas, como nestas coisas de celebração da efeméride o simbólico é uma presença essencial, é sobre o nascer do sol que incide a atenção. Porque é a aurora do dia mais longo do ano e porque marca a apresentação ao mundo de um astro-rei no auge da sua pujança.
Na Suécia, o dia tem honras de feriado nacional e da segunda maior celebração a seguir ao Natal. Esvaziam-se as ruas das cidades com a fuga para o campo ou para os parques urbanos e é lá que se faz a festa. À mesa, na relva, à beira de um lago, à volta de um poste de solstício; com família, amigos, vizinhos ou estranhos que se juntam no mesmo local. A coisa atinge uma dimensão tal, que chega a ter direito a página própria e oficial. É a vida num país de uma ruralidade sem complexos e urbanidade de verde ao lado. E que encaixa que nem uma luva numa mentalidade ecológica moderna.
E assim o ciclo solar atingiu o ponto de viragem. Durante uns dias vamos ter horas de sol abundantes, mais do que em qualquer outra altura do ano, para depois o sentido passar a ser descendente, rumo às noites longas do Inverno. É essa a natureza dos pontos aureos: atingido o topo, só se pode descer.
Um bom dia de solstício de Verão!
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quinta-feira, 3 de julho de 2008
Arte não-tão-hetero
O guerreiro rei Carlos XII em trajes femininos, uma irmã que não lhe ficava atrás, um cortesão sueco retratado como uma mulher de túnica amarela e um mamilo sugestivo, dois homens de braço dado numa ilustração do século XIX e um enfoque genital numa pintura de São Sebastião. Não, não é um sonho molhado; é o conteúdo da mais recente exposição do Museu Nacional Sueco.
Queer: desejo, poder e identidade ou de como as normas sexuais são mutáveis e as elites suecas não se importavam de as transgredir. Ainda hoje não se importam de o fazer. Um bom prelúdio para a Marcha LGBT de Estocolmo e mais uma amostra de como Portugal está a milhas do à vontade escandinavo que faz do norte da Europa um sítio bem mais civilizado do que este antro de homofobia casamenteira que é Portugal. Nem ao trabalho de ler o Código Civil Português se dão as nossas orgulhosamente provincianas "elites"...
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domingo, 29 de junho de 2008
Sem os complexos portugueses
Militares suecos juntam-se à Parada LGBT de Estocolmo de uniforme vestido. Já o ano passado, a marcha da capital da Suécia tinha contado com a presença de uma delegação da Igreja Sueca, a juntar à participação de grupos profissionais, desportivos e membros da classe política. Muito aquém do exemplo de Portugal, portanto, onde se acusa a marcha de ter demasiadas plumas e não dar uma imagem correcta da comunidade, mas onde os próprios homossexuais que criticam também não se juntam ao evento de fato e gravata, roupa de praia, traje académico, uniforme de trabalho e acompanhados por uma banda filarmónica ou tuna.
Afinal, a Parada LGBT é feita por quem nela participa, não por quem fica de fora. Se acham que não vos representa, juntem-se e dizem "presente!". Na Suécia, os militares não parecem ter problemas em desfilar ao lado de travestis; em Portugal, o estado de coisas dentro do armário parece obrigar à vivência hipócrita de criticar sem ter a coragem de mudar ou sequer de se assumir.
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sábado, 21 de junho de 2008
Solstício na Suécia
Mas eu ia lá deixar de publicitar aquele que é um ou mesmo o mais popular dos feriados suecos? Ó p'ra eles às resmas nos parques ou no campo a celebrar as 23 horas de sol diário que por esta altura iluminam a Suécia. Esvaziam as ruas das cidades para isto, sem preconceitos de ricos tão frequentes no pobre Portugal:
Quem me dera viver num país que disfrutasse assim dos espaços verdes e desse o mesmo valor ao passar das estações, sem pudores de novos-ricos ao contacto com a terra ou complexos urbanos quanto à ruralidade.
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Feliz solstício!
Começou nublado, sim, nalguns casos mesmo chuvoso. Com bom ou mau tempo, a inclinação do eixo da Terra determina que hoje é o dia mais longo do ano, sinónimo de festa de Verão na Escandinávia e em qualquer outro ponto do hemisfério norte onde haja um neopagão. Na Suécia, em particular, onde os espaços verdes têm o valor inestimável que a especulação lhes recusa em Portugal, já se deve rumar para o campo ou parques urbanos para as celebrações de solstício. Por cá, vai-se à praia como em qualquer outro dia e recria-se a experiência de Erastótenes.
Com ou sem o vigor da festa nórdica, um bom solstício de Verão!
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08:17
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sexta-feira, 6 de junho de 2008
Entretanto, no norte da Europa...

... comemora-se o Dia Nacional da Suécia. Originalmente uma celebração da bandeira sueca, à semelhança de outros dias comemorativos em que instituições e suecos anónimos exibem o símbolo máximo do seu país, ascendeu à categoria de feriado nacional por decisão parlamentar apenas em 1983. A data coincide com o aniversário da eleição de Gustavo Vasa como rei da Suécia, considerado o fundador do Estado sueco moderno, e com a aprovação de dois documentos-chave da democracia sueca, um em 1809 e outro em 1974.
Por saudades, por suecofilia e porque os suecos são um bom exemplo de como os símbolos nacionais não servem apenas para os jogos de futebol, não podia deixar de assinalar aqui o aniversário da "minha" estimada Suécia.
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quarta-feira, 30 de abril de 2008
Valborg
Por esta altura, nos campos da Suécia já se deve ver grandes fogueiras, nas ruas já deve ter começado a festa dos estudantes e, em Uppsala em particular, o coro universitário já deve ter saudado do sol poente e dado as boas vindas à Primavera com uma actuação, um discurso e toques de sino no cimo da colina do castelo, naquele que, em conjunto com o Natal e o solstício de Verão, é um dos grandes momentos festivos suecos.
Na pobreza portuguesa, o dia de amanhã é reduzido a uma única efeméride de origem sindical. Na Escandinávia, nas ilhas Britânicas e também na Alemanha, o começo de Maio não é só o Dia do Trabalhador: é sinónimo de cor, de diversidade, de vitalidade, de exuberância, de celebração, de conquista e de prosperidade, a que se tem, a que se espera ter ou aquela a que se aspira. E isso é manifesto das mais variadas formas, da festa interminável aos rituais oficiais das universidades, dos piqueniques aos jantares de dezenas ou centenas, das marchas de protesto aos cortejos de celebração, dos jogos tradicionais às competições mais recentes, das grandes fogueiras às grandes demonstrações de arte, das cerimónias modernas às de origem pagã.
Hoje é a Noite de Walpurgis, amanhã será o Primeiro de Maio. A prosperidade triunfante segue segura rumo ao climax do solstício de Verão! Waes Hael!
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
A bagagem do aeroporto
Com a decisão de construir o novo aeroporto de Lisboa em Alcochete, estava-se mesmo a advinhar que os interesses dos costume não iam tardar em manifestar-se. Bastou um dia e ei-los: as imobiliárias a argumentar que a localidade não tem como crescer e que são precisas alterações ao PDM.
Num país que precisa das grandes obras públicas como de pão para a boca, que vive dependente da construção civil que alimenta tanto os eleitores como os eleitos (e os respectivos partidos) e onde as mais-valias urbanísticas são um autêntico negócio da China à custa do herário público e do bem comum, que não haja dúvida que o Aeroporto da Canha vai ser uma verdadeira prova dos nove ao que em Portugal se entende por planeamento urbano, conservação da Natureza e ordenamento do território. Se vai ser uma obra planeada e executada com responsabilidade e rigor ou se vai servir para abrir caminho a toda a espécie de interesses e especulação imobiliária, confirmando assim as suspeitas de João Cravinho. No fundo, o que é que se quer para Alcochete? Uma cidade aeroportuária devidamente isolada a bem da segurança e da sustentabildade ou um aeroporto dentro de uma cidade à semelhança do da Portela porque não se teve nem a força, nem o sentido de responsabilidade para conter os apetites imobiliários nos terrenos envolventes e nas povoações em redor? Vamos investir milhões de euros numa estrutura de longo prazo ou daqui a duas décadas vamos estar à procura de um novo local para um novo aeroporto porque o da Canha ficou preso entre áreas habitacionais e sem possibilidade de expansão?
A título de (bom) exemplo, veja-se o Aeroporto Internacional de Estocolmo, localizado quarenta e dois quilómetros a norte da capital sueca (choque-se quem acha que Lisboa vai morrer sem a Portela). É uma autêntica cidade aeroportuária, servida por vias rodo e ferroviárias e autocarros para as duas grandes cidades mais próximas, Estocolmo a sul e Uppsala a trinta e cinco quilómetros a norte. A povoação vizinha chama-se Märsta, está a cerca de quatro quilómetros do aeroporto e, ao contrário do que sucede em Portugal cada vez que há uma grande obra pública, não cresceu desenfreadamente e ao sabor da especulação imobiliária. Pelo contrário, preserva a paisagem natural e os traços de localidade rural. Senão veja-se pela imagem de satélite:
O que se entende por desenvolvimento e progresso na Suécia parece ser "ligeiramente" diferente da compreensão que do tema se tem em Portugal, sem que com isso o país nórdico esteja, como nós, na cauda da Europa.
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