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quinta-feira, 18 de março de 2010

Quinquatria 2763 a.u.c. (2010 d.C.)

O sol já se pôs e entrámos no dia 19 de Março. Estamos na Quinquatria, o festival em honra da deusa Minerva!



Deixo os meus desejos de sucesso académico e profissional a todos os leitores e uma sugestão de leitura. Salvé, Minerva!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mês de Juno

As calendas - o primeiro dia de cada mês - eram, na Roma Antiga, consagradas a Juno. Em particular as de Junho, mês cujo nome indica ter sido baptizado em honra da deusa, que não era divindade de pouca importância.

Identificada com a etrusca Uni e com a grega Hera, tida como mulher de Júpiter e rainha celestial, assumia o título de Regina enquanto membro da tríade do Capitólio, a "cabeça" das sete colinas, e os de Interduca e Domiduca como deusa que conduzia a noiva para o casamento e para a nova casa, respectivamente. Como Juno Lucina era a da luz, no sentido de dar à luz, assumindo-se como protectora das mulheres no parto, e como Caprotina parece ter sido associada à fertilidade. Terá tido ainda um aspecto militar expresso pelos nomes Curitis, conforme registado por uma oração em que lhe era pedida protecção com a sua quadriga e escudo, e Populona, a do povo armado e mobilizado para a guerra.

O epíteto mais conhecido será o de Moneta, que poderá ter origem no latim mons (colina), mas que a tradição atribui à palavra monere (avisar), por referência a um episódio do ano 390 a.C. em que um ataque gaulês a Roma terá sido denunciado pela agitação de um grupo de gansos, a ave sagrada de Juno. Derrotados os invasores, ergueu-se um templo em agradecimento que, depois de 273 a.C., passou a ter por perto um edifício onde era cunhada moeda, palavra que terá tido origem precisamente em moneta, por associação ao local de culto.

A Juno, protectora do Estado, dos soldados e das mulheres, este blogue presta a sua homenagem, assinalando o primeiro dia do mês consagrado à deusa com esta entrada e um adoratio virtual. Salve Iuno Mater!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Aniversário da Grande Mãe

Chamada Kybele, Kybebe, Agdistis, Reia-Cybele ou apenas Cibele, os romanos referiam-na frequentemente como Magna Mater, a Grande Mãe, cujo aniversário e culminar de sete dias de festa em sua honra tinha lugar hoje, a 10 de Abril. Considerada divindade progenitora de todas as coisas, dos deuses até aos animais selvagens, era assim associada a Reia, a titânide grega que deu à luz Zeus e os seus irmãos, e representada num carro puxado por dois leões, como na fonte madrilena que tem o seu nome. No entanto, a origem do culto de Cibele não está nem em Roma nem na Grécia, mas na actual Turquia (antiga Frigia), mais propriamente na região de Pessinus, tendo sido trazido para a urbe romana em 204 a.C. e alvo de restrições pelo facto de ser presidido pelos chamados galli, sacerdotes frígios que se auto-flagelavam e castravam em danças extásicas. Ainda assim, apesar das limitações, Cibele viria a ser uma das divindades mais populares da Roma antiga, tendo-se o seu culto espalhado por todo o mundo romano, incluindo Lisboa, onde ainda hoje subsistem vestígios da devoção de que foi alvo.

Pouco antes do terramoto de 1755, quando se procedia à construção de uma casa entre a Rua das Pedras Negras, a Travessa do Almada e o Largo da Madalena, foram descobertas as fundações de um grande edifício romano, primeiro chamado de "fábrica grande e magestosa", depois templo de Cibele, por juntamente se terem encontrado ex-votos romanos à Grande Mãe. O espaço de culto à deusa ficaria assim no limite (exterior?) das muralhas romanas, junto ao que terá sido o fórum lisboeta e próximo daquela que mais tarde seria a Porta de Ferro, entrada ocidental da cerca moura aquando da conquista de Lisboa em 1147 e, possivelmente, construída no que restava de um arco do triunfo romano. No século XVIII, depois do terramoto, sobre as ruínas acabou por ser erguida uma habitação pombalina e, numa das paredes exteriores, mais propriamente na que dá para a Travessa do Almada, foram colocados quatro ex-votos que ainda hoje lá estão, embora em mau estado de conservação.



Clicar nas imagens para aumentar o tamanho

Já agora, o piso térreo do edifício - o mesmo do ar condicionado "confortavelmente" em cima de um vestígio romano - é actualmente ocupado pela sede do Movimento Esperança Portugal. Ainda toquei à campainha para perguntar se tinham planos para mudar a coisa de lugar e dar o devido destaque (e cuidado) a peças de valor histórico, mas ninguém abriu a porta. Fiquei sem saber se a "esperança" do movimento também abrange o património.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A Minerva (v)

A encerrar a Quinquatria, eis um detalhe do estudo da Minerva de Paz por Elihu Vedder, obra em mosaico de 1896 presente na Biblioteca do Congresso Americano. Nas mãos da deusa (ver aqui), a lista dos trabalhos que estão sob a sua alçada.



Mille dea est operum. Si mereramus, studiis adsit amica nostris.
Ele é a deusa dos mil trabalhos. Se o merecermos, que ela seja amiga dos nossos intentos.

Ovídeo, Fasti

sábado, 21 de março de 2009

A Minerva (iii)

Em Dia da Árvore e terceiro da Quinquatria, uma homenagem à oliveira com uma imagem ilustrativa de um mito fundacional de Atenas, já indicado pelo Z na caixa de comentários da entrada anterior:



"Ó oliveira, abençoada a terra que te nutre e abençoada seja a água que bebes caída das nuvens."

Cantiga cretense

sexta-feira, 20 de março de 2009

A Minerva (ii)



Pallada nunc oremus. Qui bene placavit Pallada, doctus erit.
Oremos agora a Palas. Quem bem agradar a Palas, será douto.

Ovídeo, Fasti

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Minerva (i)



Dies admoniet et forti sacrificare deae, quod est illa nata Minerva die.
Este dia lembra-nos de sacrificar à deusa forte, porque aquele é o dia do nascimento de Minerva.

Ovídeo, Fasti

Dia de Minerva

O dia de hoje é, para mim, especial. Não por ser Dia do Pai e não porque o meu não mereça o meu apreço. É-me especial porque, segundo reza a tradição da Roma antiga, o quinto dia sobre os idos de Março - que é hoje - assinala o aniversário da deusa Minerva e o início da Quinquatria, o festival em sua honra. Quer isto dizer que, para quem, como eu, é simultaneamente pagão romano e um académico (in the making que seja), o dia de hoje e os quatro que se seguem são de regozijo.

As origens da deusa romana são incertas. Por não ter um flamem, presume-se que não seja uma divindade arcaica entre os latinos, apontando-se em vez disso uma proveniência etrusca sob o nome de Mnerva ou Menerva. A dada altura identificada com a grega Atena, não será de desconsiderar a hipótese de ser essa, em última análise, a origem da deusa, chegada ou cruzada na Etruria por relações comerciais com a Helade e da Etruria para Roma antes de voltar a encontrar-se com a sua génese aquando dos estreitar de relações entre a urbe romana e as colónias gregas no sul de Itália. Mas seja qual for a origem de Minerva, o certo é que ela viria a ascender ao topo do panteão da religio ao integrar a tríade do Capitólio, lado a lado com Júpiter e Juno. Deusa das artes e do engenho que marca a personalidade de heróis como Ulisses, ela é a divindade virgem da guerra enquanto exercício de estratégia - logo, da razão - uma Senhora de profunda sabedoria e, dir-se-ia, protectora dos homens e mulheres que resistem e perduram pelo seu esforço e mérito. Por outras palavras, uma deusa de qualidades do espírito humano e, por isso mesmo, uma benfazeja da Humanidade.

E eu, que já nos meus tempos de petiz olhava para ela com fascínio (ainda hoje guardo em casa uma taça grega com uma imagem de Atena), vibro agora com o aniversário de Minerva. O dia começou, por isso, com um banho e uma oferenda de incenso, a que se juntará ainda o derramar de azeite nos ramos de uma oliveira e um conjunto de entradas neste blogue, a começar com esta e a prolongar-se durante os restantes quatro dias da Quinquatria. Mesmo sem poder realizar uma cerimónia romana apropriada, o dia de tão inclíta deusa não passa em claro.

Um adoratio a Minerva!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Memória Pagã 2009

Corria o ano de 391 quando o imperador Teodósio ordenou o encerramento de todos os templos pagãos. No dia 24 de Fevereiro desse mesmo ano, a chama da deusa Vesta foi apagada sem que fosse reacendida. Não sendo verdade que ela ardia ininterruptamente há séculos - a própria religio previa a renovação anual do fogo sagrado - certo é que é o momento foi o silenciar de um dos cultos mais antigos de Roma.

Era o resultado da ascensão ao poder do cristianismo e do sucesso da sua exigência de monopólio do sagrado. Coisa inédita na Europa antiga e, com ela, no mundo mediterrânico, onde o paranorama religioso era um de diversidade e de sincretismo. Se perseguições e supressão religiosa houve - e elas existiram - a sua motivação foi principalmente política. O caso dos druidas será, por ventura, o mais conhecido. Mas nem mesmo isso impediu que Epona, deusa celta dos cavalos, viesse a ter um templo em Roma. A novidade do cristianismo estava no credo como justificação para a extinção: não se propunha a conviver com os antigos deuses, mas a suprimi-los; não se contentava com um espaço partilhado, queria o monopólio do religioso. É uma consequência natural do monoteísmo estrito que, ao conceber apenas um deus, anula por exclusão de partes a crença em todos os outros. E isso resulta naquele pensamento binário simples, mas tantas vezes destrutivo: ou é preto ou é branco; ou estás comigo ou contra mim. Parafraseando de S. Paulo numa das suas cartas, não se pode comer ao mesmo tempo na mesa de Deus e dos demónios. Foi essa a mentalidade que suprimiu a diversidade religiosa europeia, incluindo dentro do próprio cristianismo, em luta contra as suas muitas "heresias".

Assim sendo, 24 de Fevereiro tem sido declarado por alguns como o Dia Europeu da Memória Pagã, porque nele extingiu-se a chama ancestral de Roma. E o fim de um dos mais antigos e elementares cultos romanos foi sintomático da supressão religiosa que assolava já a Europa e viria a generalizar-se pelo velho continente. Apagado o fogo de Vesta, apagava-se a chama do paganismo antigo; primeiro no mundo mediterrânico, depois no resto da Europa.

Neste dia, recorde-se então os perseguidos, os resistentes, os heróis e preste-se-lhes homenagem. Juliano será por ventura o exemplo mais conhecido, mas houve outros. Haja memória para que ela não morra e, resistindo ao passar do tempo, venha, no futuro, a permitir que o que foi extinto seja novamente uma realidade. Até porque já estivemos mais longe de o conseguir ;)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Parentalia

Na antiga religião romana, Fevereiro é tempo de purificação, uma tradição sobrevivente de quando o calendário tinha dez meses e o ano começava em Março. Assim sendo, era próprio (e continua a ser lógico) que o começo de um novo ciclo fosse antecedido pela devida limpeza e preparação. O processo de purificação tinha início a 13 de Fevereiro com a Parentalia, a celebração de nove dias aos antepassados.

Por ser uma festividade dedicada aos mortos, o período era marcado por tabus que levavam ao encerramento de templos, à proibição de casamentos e à exibição das insígnias dos magristrados. Era a manifestação da ideia de que a piedade, que consiste no cumprimento zeloso de deveres, implica alguma forma de estado impuro quando se trata do dever para com os defuntos, pelo que se exigia uma suspensão ou reserva que antecede o regresso a uma condição pura, que é física e não moral. Para pôr as coisas de um modo muito prosaico, trata-se de uma espécie de higiene num plano do religioso: o contacto com os mortos exige cuidados seguidos de limpeza. Apropriado, portanto, que tenha lugar no que em tempos foi a véspera de ano novo.

Para a celebração deste período, são próprias cerimónias privadas de homenagem aos antepassados, que, nos nossos dias, podem passar por coisas como o rever de vídeos ou fotografias de família, recordar de histórias e episódios de vida dos que já faleceram e oferendas de incenso, flores ou velas junto das suas fotografias. A 21 de Fevereiro, o último dia da Parentalia, as cerimónias tornavam-se públicas com a romaria aos cemitérios (como actualmente se faz em Novembro), onde a família tomava refeições junto dos túmulos, derramava libações ou deixava oferendas de flores. E atenção que, no seguimento do que já foi dito, o que é oferecido aos mortos não pode ser partilhado com os vivos.

O ciclo de purificação entre parentes terminava a 22 de Fevereiro com a Caristia ou Cara Cognatio, a festa dos vivos que originava novas refeições em família, desta feita em casa e com oferendas ao respectivo Lar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano Novo

Janeiro vem de Jano, que é o deus romano dos começos. Dele é o primeiro mês e o primeiro dia do ano, tal como nos sacrifícios Jano é o primeiro a receber oferendas, para que por ele tudo se faça como pela porta se entra em casa. Ele é Bifrons, o das duas faces, uma voltada para trás e outra para a frente, no limiar das coisas e de olhos postos em simultâneo no fim e no começo, na entrada e na saída. É clusivus, o que fecha as portas, e patulcius, o que as abre. Ele é Jano matutinus, o que preside à alvorada, e é pater, porque esteve no começo dos tempos tal como está no do ano, meses e dias. Ancião entre deuses e homens, a ele foi consagrado o mês que hoje começa.


Jano é uma divindade celestial adorada em ritu romano. O sacrifício deve ser conduzido de cabeça coberta e as oferendas devem ser entregues às chamas. A tradição escrita que chegou aos nossos dias refere o vinho e o incenso como ofertas propícias ao deus dos começos, juntamente com um pão básico, sem fermento e até sem sal, simples e primitivo como as coisas no início. Flores também são uma possibilidade, embora não sejam necessariamente atiradas ao fogo. Podem antes ser depositadas num altar ou transformadas em coroa que adorne uma imagem do deus, como se fez cá por casa, onde Jano vai estar o dia todo em lugar de destaque. O primeiro de Janeiro é também um dia auspicioso, logo, propício ao começo de projectos, contractos, acordos, planos e à declaração de desejos e votos. É de entrar no novo ano com um pé direito que Jano está um mãos largas todo o dia.

Para todos os leitores do Penates Publici, umas boas entradas e um dia portentoso, em jeito de boa sorte para um 2009 que se espera difícil. Salvé, Pai Jano!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Dies Natalis Solis Invicti


Seja ele Mitras, Apolo, Sol Indiges, El gabal (este último na origem do título invicto) ou até Jano, 25 de Dezembro marca em definitivo o aniversário do Sol Invencível, que morre e renasce todos os anos, renovando-se a si mesmo e anunciando a renovação da terra.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Saturnalia 2008

Um pequeno sacrifício a Saturno realizado esta tarde, no último dia da Saturnalia. Foi uma coisa mais pensada e um pouco formal (na medida do possível), para não me ficar pelas oferendas diárias de incenso destes últimos dias e para compensar a ausência de um rito completo a 17 deste mês.


Sendo Saturno uma divindade ctónica, isto é, um deus da terra, a tradição romana aconselha a que as oferendas sejam depositadas no solo ou queimadas num buraco previamente escavado. É também uma divindade adorada em Ritus Graecus, o que dispensa o tapar da cabeça e sugere o uso de uma coroa de louro, e a oração a Saturno deve ainda ser proferida com as mãos na terra. Pelo menos na ausência de um altar propriamente dito. Aos deuses Jano e Vesta foi oferecida, a cada um, uma porção de vinho e incenso no início do sacrifício, o primeiro porque preside ao começo das coisas, a segunda porque guarda a chama onde as oferendas são queimadas. As espigas foram um extra a Saturno, já que são um símbolo comum de prosperidade agrícola.

E isto tudo dito assim até parece um momento Pingo Doce, LOL! :p

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sol Invicto 2008

Contrariamente ao que indica a imagética da época, expressa nas peças jornalísticas, em decorações e mensagens natalícias, a origem do Natal não está no nascimento de Jesus. Talvez eu esteja a dizer uma banalidade da qual já muitos têm consciência, mas, porque uma coisa é ter uma noção vaga e outra conhecer o nosso passado, nunca é demais lembrar e explicar que o cristianismo mais não fez do que dar uma forma sua a uma celebração mais antiga, tomando-lhe o significado e moldando-o segundo a teologia da Igreja. E, acrescento, esta entrada vai direitinha para pessoas como o dr. maybe que, compreensivelmente, expressa o seu repúdio por um Natal resumido a pouco mais do que o imperativo consumista das prendas. Estamos juntos nessa opinião, mas se este texto ajudar a devolver algum sentido à festa natalícia, melhor; se não ajudar, que valha ao menos por algum estímulo intelectual.


O Natal é, na sua origem, uma celebração do solstício de Inverno, efeméride que corresponde a um extremo de inclinação da Terra sobre o seu próprio eixo e que se traduz, a 21 ou 22 de Dezembro, no culminar do processo de redução progressiva do número de horas de sol. A partir desse ponto, o ciclo inverte-se e a duração da luz solar aumenta lentamente rumo ao extremo inverso dos dias longos - o solstício de Verão. No mundo antigo, a par de uma consciência do fenómeno astronómico, a mentalidade religiosa via na ocorrência uma morte e renascimento do sol que anunciava a renovação da própria terra meses depois. Era, por isso, uma celebração em que as populações se entregavam a manifestações de vitalidade e abundância que contrariavam a morte aparente do mundo, expressa na perda de vegetação, na improdutividade do solo e nos dias curtos e frios, para de alguma forma contaminar o mundo natural com essa vitalidade e revigorá-lo. Era também uma época dedicada a cultos agrícolas, porque o solo aguardava a germinação de novas sementes e, por associação, era ainda dedicada ainda ao culto dos antepassados - os que vivem no submundo, sob a superfície da terra que gera plantas.

Na Roma antiga - e julgo que não será preciso dizer o quanto ela nos legou - esse ambiente de festa invernal manifestava-se em celebrações como a Consualia, dedicada ao deus Consus, que era guardião celeiros subterrâneos; a Opsalia, festividade da deusa Ops, que presidia à abundância agrícola; e a Saturnalia, por ventura a mais popular e conhecida celebração natalícia romana. Consagrada a Saturno, deus da prosperidade ao qual se atribuia uma Idade de Ouro pré-romana, a festividade caracterizava-se por um ambiente quase carnavalesco em que se suspendia momentaneamente a ordem social e se mergulhava num clima de festa entre amigos e família, reunidos em grandes refeições e na troca de presentes. Inicialmente durava apenas um dia - 17 de Dezembro - mas a popularidade da Saturnalia aumentou-lhe a duração até dia 23 e nem Augusto conseguiu encurtar a celebração.

Séculos mais tarde, em 274, outro imperador - Aureliano - introduziu com sucesso um novo culto de origem oriental: o do Sol Invictus! Não era exactamente uma novidade, dado que os romanos já tinham uma divindade solar nativa e, durante o curto reinado de Elagabalus, o deus-sol oriental fora introduzido em Roma, embora sem sucesso. Foi Aureliano quem estabeleceu o novo culto em definitivo, reunindo sincreticamente sob o título de invictus três divindades "luminosas": o Sol nativo, o de origem síria e o deus Mitras, cujos mistérios romanos atingiram grande popularidade precisamente no século III. E do culto ao Sol Invencível fazia parte a festa anual do seu nascimento, o Dies Natalis Solis Invicti, celebrado a 25 de Dezembro. Porque quando se atinge os dias mais curtos do ano e, pouco depois, o ciclo inverte-se, é entendido que o sol morreu e renasceu, invencível.

A partir daqui, estão lançadas as bases para o Natal moderno. O cristianismo de massas e principalmente o de poder, incapaz por vezes de pôr fim a cultos pagãos, toma-os para si e molda-os o mais que pode à imagem da teologia oficial. Muda-se o contexto do acto religioso, que é por isso mesmo alterado, sem que, no entanto, ele se extinga. Assim, os festejos da prosperidade e paz da Idade de Ouro de Saturno e do nascimento do Deus-Sol convertem-se na celebração do nascimento do Deus-Menino que trouxe paz ao mundo. Pelo meio, preserva-se a troca de presentes, os banquetes e a data - 25 de Dezembro - traços a que a expansão do cristianismo pela Europa e a frequência de trocas de mercadorias e influências havia, a seu tempo, de acrescentar as decorações e personagens vindas do norte europeu, como a árvore de Natal ou o generoso homem de barbas, transformando-os, até hoje, em símbolos universais da quadra.

O que é o Natal? Se não se é religioso - cristão, pagão ou qualquer outro - se não se dá valor à inversão de ciclo que é o solstício e as relações familiares não são as melhores, então o mais provável é que se resuma quase em exclusivo à troca de presentes e postais. Ou então diz-se que é uma festa apenas para crianças. O desafio, no entanto, que eu gostava de lançar ao dr. maybe e outros é precisamente o de encontrarem um sentido para a coisa fora das prendas e livre de militância religiosa.

Numa altura do ano em que o mundo simula morte - nós perdemos cabelo, as árvores perdem folhas; perdemos o calor da juventude, o frio aumenta; perdemos visão, as horas de sol diminuem - proponho que se entreguem a actividades com as quais manifestem a vossa vitalidade: correr numa praia, dar um mergulho no mar à noite, tirar uma tarde para um qualquer desporto radical que faça subir a adrenalina, dançar porque sim, saltar porque apetece, rir até doer a barriga, abraçar com força aqueles de quem mais se gosta ou ter sexo até cansar. Tudo responsavelmente, claro, e com o solstício no horizonte para não ser "apenas" algo que se faz em qualquer outra altura do ano. Vão ver o nascer do sol do dia em que começa o Inverno e aproveitem o momento, nem que seja pela consciência de que a lenta caminhada rumo ao calor e dias longos do Verão começa hoje ;)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Io, Saturnalia!

O Natal anda a consumir-me tempo à medida que me desdobro em enfeites, oferendas, postais e os preparativos para o solstício de Inverno. Tanto assim é que até me esqueci que 17 de Dezembro é dia de Saturnalia segundo o calendário festivo da Roma Antiga.

Originalmente uma celebração de apenas um dia, diz Tito Livio que no aniversário da consagração do templo a Saturno, era uma festividade de abundância, paz e fartura a poucos dias do solstício de Inverno. A efeméride abria com um sacrifício matinal, seguido de um banquete aberto a todos. Ao mesmo tempo, Roma deixava-se tomar por um ambiente de festa que proibia o trabalho e os negócios e dava rédea livre a jogos, troca de presentes e à suspensão temporária da ordem social, com os nobres a deixarem de parte a indumentária que denunciava o seu estatuto e os escravos a desfrutarem de um dia livre, nalguns casos servidos até pelos seus donos. Era uma reprodução anual daquilo que os romanos entendiam como os traços que tinham caracterizado a Idade de Ouro de Saturno: igualdade, concórdia e prosperidade. A popularidade da celebração era tal que o número de dias festivos passou de um para três e, mais tarde, uma semana inteira de festa, de 17 a 23 de Dezembro! E, pelo meio, nas ruas como nas casas, ecoavam gritos de Io, Saturnalia!

Sem ainda ter feito as devidas oferendas (ainda!), aqui fica, no entanto, uma homenagem virtual ao própero Pai Saturno na forma desta entrada e do vídeo que se segue, alegre e mais próprio do dias quentes de Verão, mas por isso mesmo adequado para as comemorações de uma Idade de Ouro às portas do solstício de Inverno:

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Livros em noite de Samhain

A pedido de muitas famílias (leia-se, do Pedro), segue-se uma lista de livros recomendados a principiantes nas lides da antiga religião romana. Não que eu seja um perito no assunto - muito longe disso! - mas, quando há vontade de ler e saber, todas as notas são dignas de troca, venham elas de experiência própria ou de recomendações de terceiros.

A tradução inglesa da Introdução à Religião Romana de John Scheid é uma excelente leitura para começar. Obedece a uma abordagem esquemática, com uma breve discussão da metodologia do estudo do tema, a apresentação geral de calendários, tipos e organização do espaço sagrado, rituais, grupos sacerdotais, História e uma análise particularmente importante de conceitos e ideias-chave da antiga religião romana, de modo a tornar bem claro o seu significado na Antiguidade Clássica. Deixo uma breve citação para abrir o apetite:

The principle by which it [religio romana] was ruled, in the historical period at least, was a civic rationality that guaranteed the liberty and dignity of its members both human and divine. That article of 'faith', virtually the only one known to Roman Religion, was constantly affirmed and defended by authorities and thinkers alike. (...) Relations with the gods were conducted under the sign of reason, not that of the irrational, in the same way as they were conducted between one citizen and another, or rather between clients and their patrons, but never between slaves and their masters. (p. 28)


Dividida em quatro partes - religiões da família, da cidade, do Império e o impacto do cristianismo - Os Deuses da Roma Antiga de Robert Turcan tem, não obstante, uma abordagem mais cronológica. O que não quer dizer que não seja também uma óptima introdução: são cerca de 160 páginas de informação concentrada com abundantes citações de autores antigos, uma descrição por vezes bastante detalhada de ritos diários e calendários e considerações sobre as crenças e mentalidade religiosa romana. Útil para qualquer principiante no tema, mais ainda se a pessoa não quiser investir logo na aquisição ou leitura de fontes primárias. Deixo também uma pequena citação:

There was nothing more specifically Roman than domestic worship; it was what immediately distinguished Roman religion, for example on Delos, from the Greek environment, in the case of the colonists who lived on the island. A man could not be evicted or have an attempt made on his life 'in the presence of the Lares, gods of the house' (Cic. Quint. 85). (p.14)




O Dicionário de Religião Romana de Lesley e Roy Adkins é uma ajuda indispensável quando uma pessoa se sente perdida no meio dos nomes de festivais e deuses ou tem curiosidade e quer saber mais nem que seja em modo compactado. São mais de duzentas páginas com centenas de entradas que cobrem desde divindades a templos, passando por celebrações, símbolos e personagens históricas, incluindo dos primeiros tempos do cristianismo. Algumas páginas complementam o texto com fotografias, ilustrações, registos arqueológicos e plantas de edifícios; tem ainda com um glossário e, é claro, uma preciosa bibliografia no final.





Last but not least, dois volumes de informação com o título de Religiões de Roma! O primeiro tomo ocupa-se da História dos diferentes cultos que compunham o sistema religioso romano, enquanto o segundo é uma recolha de excertos de numerosas fontes primárias e académicas. Mais uma vez, uma boa solução para principiantes que não se sintam ainda à vontade com os textos latinos, embora esse passo seja inevitável se se quer ter um bom conhecimento do tema. Isso e saber minimamente latim...

Para uma bibliografia mais detalhada, Pedro, podes sempre consultar esta lista de listas de leituras propostas pela Nova Roma. E já que estou com as mãos no teclado, um bom Samhain ;)