Há 20 anos atrás, foi feito um censo pagão nos Estados Unidos que originou a publicação deste livro - Voices from the Pagan Census. O estudo foi limitado, não só por se resumir a um âmbito nacional americano, mas também por falta de instrumentos como a internet. Isso e o facto de ter tido um ênfase fortemente wiccan.
Duas décadas depois, o censo é internacional, está online e houve uma tentativa de o alargar a todos os ramos, correntes e grupos de neopagãos. Ainda com falhas, é certo, que, por exemplo, o documento não lista os reconstrucionismos celta ou romano, mas deixa espaço para que cada um possa acrescentar a sua filiação religiosa. E vai ser possível comparar os resultados actuais com os de há vinte anos - detectando padrões de mudança ou de estabilidade nos Estados Unidos - assim como ter, finalmente, uma ideia concreta do número de neopagãos no mundo, para lá de estimativas e hipóteses. Isto é, se a participação for grande, muito grande.
Assim, é com agrado que deixo aqui o meu apelo à participação de todos os que, em Portugal, sejam neopagãos. Ou, àqueles que não o são, que passem a palavra a quem seja. Algumas informações extra podem ser lidas neste blogue e o documento pode ser preenchido aqui. Ao censo, meus caros!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Pagãos portugueses: ao censo!
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Renascimento a oriente?
Via The Wild Hunt, eis duas notícias de (possíveis) novos tempos para antigos locais de culto pré-cristão: a descoberta do mais bem conservado templo à Grande Mãe Cybele e os planos de reconstrução do Templo de Artémis de Éfeso!
O primeiro encontra-se próximo da localidade de Balchik, na Bulgária, e foi encontrado em 2007 graças a trabalhos arqueológicos de emergência, motivados pela construção de um hotel. As primeiras escavações denunciaram logo que se estava perante um monumento de raro valor, à medida que estátuas e estruturas eram desenterradas. Segundo os académicos, para além de ser o mais bem preservado edifício helénico nos balcãs, o templo aparenta ser também o mais bem conservado local de culto da Grande Mãe em toda a Europa! E não será demais acrescentar que isso significa muito, mas mesmo muito num panorama de vestígios muitas vezes residuais. Basta lembrar as ruínas do templo à mesma divindade no Palatino em Roma ou, mais próximo de nós, as supostas fundações descobertas após o terramoto de Lisboa de 1755 junto à Igreja da Madalena, onde ainda hoje a parede exterior de um edifício próximo ostenta ex-votos de adoradores de Cybele. Que se tenha descoberto uma estrutura bem conservada é, de facto, um achado raro, mais ainda quando os arqueólogos dizem que ele pode ser integralmemte restaurado!
O único problema que se põe são as intenções do proprietário do terreno que, depois de tomar conhecimento do que tinha em mãos, pôs o local à venda por mais de 600 mil euros depois de a autarquia já ter gasto uma quantia avultada para assegurar a preservação dos achados. A menos que o proprietário desça o valor pedido ou o Estado bulgaro intervenha (ou alguém de carteia cheia dê uma mãozinha), pode estar em risco o mais bem preservado templo da Grande Mãe.Numa nota mais animadora, na vizinha Turquia surgiu um projecto de reconstrução integral do Templo da Éfeso à deusa Artemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Sim, integral! E não apenas uma mera cópia, mas um novo Artemision. A notícia detalhada está preto no branco aqui para quem se quiser deliciar: a 1500 metros das ruínas do último templo, surgirá um novo também ele com 120 colunas, 25 mil metros cúbicos de mármore e o bónus de ter estátuas da autoria de alguns dos melhores escultores do mundo. Um digno sucessor do edifício destruído no século V.
Alguém (não) consegue imaginar o ressurgimento em poucas décadas de dois focos de peregrinação pagã em território europeu? E se a ideia pega e o exemplo for seguido? Assistiremos algum dia à reconstrução do templo de Cybele no Palatino? Aos de Saturno, Concórdia e Castor e Pollux no Fórum Romano? Atrevo-me a sonhar com uma nova Casa das Vestais?
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sábado, 21 de junho de 2008
Feliz solstício!
Começou nublado, sim, nalguns casos mesmo chuvoso. Com bom ou mau tempo, a inclinação do eixo da Terra determina que hoje é o dia mais longo do ano, sinónimo de festa de Verão na Escandinávia e em qualquer outro ponto do hemisfério norte onde haja um neopagão. Na Suécia, em particular, onde os espaços verdes têm o valor inestimável que a especulação lhes recusa em Portugal, já se deve rumar para o campo ou parques urbanos para as celebrações de solstício. Por cá, vai-se à praia como em qualquer outro dia e recria-se a experiência de Erastótenes.
Com ou sem o vigor da festa nórdica, um bom solstício de Verão!
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segunda-feira, 9 de junho de 2008
O moralismo religioso de Estado
Via Avenida Central, cheguei a esta notícia que, tal como ao Pedro Morgado, ensinou-me que a legislação nacional não permite sex shops a menos de trezentos metros de escolas, parques ou locais de culto. Que não possam estar a paredes meias com espaços de ensino e ocupação de tempos livres ainda se percebe, apesar de eu achar que a curiosidade própria das crianças e os naturais apetites sexuais dos adolescentes não devem ser enfrentados com tabus e redomas hermiticamente fechadas. Mas, saltando esse ponto, a questão que fica é a da autoridade de um Estado laico para legislar em matérias de moral religiosa.
Laicidade quer dizer neutralidade. A estrutura estatal que a assume está a dizer que não vai tomar partido em matérias de religião, limitando-se a dar liberdade aos seus cidadãos e a zelar pelo cumprimento da lei civil. O Estado laico não emite opiniões a respeito de crenças, mundividências, textos e cosmologias de qualquer religião. Também não pode ser ateu, já que isso seria uma quebra da sua neutralidade por tomada de partido pela negação da fé. Nem sequer pode definir o que é uma religião, por mais estranhas ou até ridiculas que as crenças possam parecer: se um conjunto de pessoas adora uma maçaneta ou um caixote do lixo e diz ser essa a sua fé, tem todo o direito de o fazer. O Estado laico, por não ser um credo nem uma instituição direccionada para o seu estudo, é religiosamente incompetente, devendo limitar-se a assegurar a liberdade religiosa dos seus cidadãos e o respeito pela lei e ordem civis. Nada mais!
Se é incompetente em matérias de religião, porque é que o laico Estado Português tem opinião a respeito da moral religiosa e dá-lhe forma legal? Afinal, proibir lojas de sexo a menos de trezentos metros de locais de culto é cair no pressuposto de que toda e qualquer religião tem alguma forma de aversão a manifestações de sexualidade, à imagem e semelhança das três fés abraamicas. Fazê-lo é emitir um juízo em matérias às quais o Estado laico devia ser alheio, mais ainda quando a diversidade religiosa que caracteriza as sociedades ocidentais acolhe, desde há várias décadas, diversos grupos religiosos que não só não repudiam o acto sexual, como até o integram na sua própria iconografia e rituais.
Foi nesse sentido, aliás, que se pronunciou uma turista francesa entrevistada pelo JN a respeito do tema, afirmando que "cada um tem a sua religião, não vejo qualquer problema com essa proximidade." Já em Portugal, a única proximidade que parece não incomodar é do Estado com a religião.
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sexta-feira, 9 de maio de 2008
Leituras religiosas, mas académicas
Via o blogue The Wild Hunt cheguei a estes textos das intervenções da Conferência Internacional de 2008 da CESNUR, Centro para Estudos sobre Novas Religiões. Criado em 1988 por um grupo de académicos como associação profissional de estudiosos em minorias religiosas, novos movimentos religiosos, escolas esotéricas, espirituais e gnósticas contemporâneas e as novas consciências religiosas em geral, o CESNUR assumiu na década de 1990 um papel pró-activo e passou a dsponibilizar informação ao público de forma regular, abriu centros e passou a organizar conferências e seminários em vários países. Foi uma reposta às frequentes incorreções propagadas pelos media e decisores políticos a respeito dos novos movimentos religiosos, por vezes por acção dos próprios. Actualmente, o CESNUR é uma rede de organizações académicas independentes e dedica-se à pesquisa especializada no campo das novas consciências religiosas, à propagação de informação credível e responsável, à exposição de problemas associados a alguns movimentos e à defesa da liberdade religiosa.
Aqui ficam as ligações directas para alguns dos estudos de interesse para os pagãos e não só (formatos Word e PDF):
The Role of Nature, Deities and Ancestors in Constructing Religious Identity in Contemporary Druidry
The Baha’i Faith and Wicca - a comparison of Relevance in two emerging religions" (esta é para o Marco)
The Rise and Fall of a Public Witch Hunt: Changing Media Attitudes to New Religious Movements Since 1988
Is the ‘New Age’ a coherent concept?
Online and Offline - Locating Pagan Community
Boa leitura!
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quinta-feira, 1 de maio de 2008
Coisas do Primeiro de Maio
E podia-se ainda acrescentar as Maias, a coroação da Rainha de Maio e as celebrações estudantis. O começo de Maio é uma das épocas do ano mais ricas em festividades e é de aproveitá-lo da melhor forma possível.
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Música para o Primeiro de Maio
When the trees are crowned with leaves
When the ash and oak, and the birch and yew
Are dressed in ribbons fair
When owls call the breathless moon
In the blue veil of the night
The shadows of the trees appear
Amidst the lantern light
We've been rambling all the night
And some time of this day
Now returning back again
we bring a garland gay
Who will go down to those shady groves
And summon the shadows there
And tie a ribbon on those sheltering arms
In the springtime of the year
The songs of birds seem to fill the wood
That when the fiddler plays
All their voices can be heard
Long past their woodland days
We've been rambling all the night
And some time of this day
Now returning back again
we bring a garland gay
And so they joined their hands and danced
Round in circles and in rows
And so the journey of the night descends
When all the shades are gone
"A garland gay we bring you here
And at your door we stand
It is a sprout well budded out
The work of Our Lord's hand"
We've been rambling all the night
And some time of this day
Now returning back again
we bring a garland gay.
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quinta-feira, 20 de março de 2008
Momento primaveril
É certo que indecisa na vestimenta verdejante e metereologicamente hesitante, mas o equinócio assim o dita: hoje foi momento de igual dimensão do dia e da noite e entrámos na Primavera! Às tradicionais festividades pagãs de Quinquatria e Ostara e ao Ano Novo Baha'i, em 2008 o calendário acrescentou a esta época a Páscoa cristã, enquanto os ateus mais amantes da praia podem, como sempre, regojizar-se com a crescente proximidade do Verão :] Seja qual for o caso, um bom fim de semana festivo para todos (mesmo que o tempo ainda não dê para uns mergulhos no mar).
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domingo, 16 de março de 2008
As querelas neopagãs
O Pedro Fontela escreveu no seu blogue esta entrada sobre as querelas internas do neopaganismo, nomeadamente o marginalizar e ridicularizar dos wiccans por reconstrucionistas. É assunto em que eu já não tocava há muito, pese embora testemunhe com frequência atitudes como as referidas pelo Pedro (ou relatos delas), sintomas de um mal estar que ainda vai durar muitos anos porque as raízes são profundas e têm muito que as alimente.
No cerne da questão está o Wicca e a fraca qualidade académica das teorias de muitos dos seus seguidores e da abundante e muito comercial bibliografia por eles publicada. Apesar de ser verdade que já muitos wiccans puseram de parte a ideia da sua religião ser milenar e concordam tratar-se de uma tradição com pouco mais de meio século, persiste, no entanto, a mentalidade que presidiu aos erros de análise histórica dos primeiros tempos. E, persistindo, origina nova pesquisa de qualidade duvidosa ou ideia feitas que os seus autores insistem em apresentar como sendo factos históricos. É fácil perceber como é que isto acontece, basta desfolhar uma das muitas publicações wiccans ou New Age dos últimos anos: muito provavelmente, terá páginas e páginas sobre religiões pré-cristãs e nem uma citação ou referência a fontes primárias para sustentar a argumentação. Se existir, as conclusões conseguem ser do mais fantástico possível. A base da pesquisa é feita com outras obras modernas, poucas académicas de boa qualidade e raramente uma fonte medieval ou antiga, num tipo de bibliografia que reproduz a mentalidade pseudo-académica dos primeiros wiccans e que cria determinadas ideias sobre o paganismo antigo. A título de exemplo, soube recentemente do caso de um seminário onde foi defendida a ideia de que as Virgens Vestais eram prostitutas sagradas, pelo menos numa fase inicial. A base para a teoria? Astrologia, astronomia e umas quantas noções New Age. Mesmo que já seja do conhecimento geral que o Wicca não tem mais de cinquenta anos e picos, o tipo de má pesquisa que originou essa ideia continua a dar frutos e, obviamente, a azedar as relações entre wiccans e reconstrucionistas.
Julgo que o Pedro saberá que o reconstrucionismo nasceu precisamente como reacção à forte carga wiccan das primeiras tentativas de recuperação religiosa dos panteões pré-cristãos. Uma das raízes da fratura esteve precisamente no método: uns constroem a sua religião com base nas preferências pessoais, podendo recorrer a uma variedade de tradições e misturando-as a gosto, outros procuram estruturar a sua prática religiosa com base numa pesquisa académica o mais rigorosa possível (e possível aqui quer dizer muita coisa). A fratura ainda hoje se mantém e é visível no tipo de bibliografia utilizada, logo na mentalidade ou no tipo de argumentação comum em cada um dos lados. O choque é fácil ou mesmo inevitável, mais ainda se tivermos em conta que há extremismos. Se é verdade que entre wiccans não é difícil ouvir-se ideias pessoais serem apresentadas como factos históricos, também é verdade que a procura de rigor histórico entre reconstrucionistas leva alguns deles a cristalizar o paganismo moderno ou a defender uma forma de pureza cultural irreal. Por exemplo, considere-se os seguintes pontos desta definição de reconstrucionismo romano:
What We Are Not About
As we are concerned with historical accuracy, the public rites of the Religio Romana do not include:
(...)
- Eclecticism (as opposed to historical syncreticism; combining classical Roman religion with other cultural traditions that weren't combined historically; Romano-Celtic worship is certainly appropriate, sacrifice to Mercurius-Quetzalcoatl probably isn't).
Se os autores da definição reconhecem que no passado houve sincretismo entre divindades romanas e as de povos conquistados ou com as quais Roma teve contacto, não se percebe porque é que esse processo sincrético que era natural na Antiguidade tem que ficar restrito às divindades conhecidas então. O reconstrucionismo não pode ser sinónimo de recriacionismo e a confusão entre as duas coisas também contribui para as crispações entre wiccans e reconstrucionistas, porque passa a existir uma espécia de "excesso de modernidade" de um lado e um "excesso de antiguidade" do outro. E como as publicações wiccans e esotéricas proliferam e tendem a referenciar-se umas às outras, há material suficiente para alimentar novas querelas e conflitos entre reconstrucionistas e wiccans por muitos, muitos anos.
Quanto à falta de ligação física entre pagãos portugueses, a coisa depende do tipo de pagãos em causa. Se forem wiccans, estão certamente bem organizados, em boa medida porque o seu número é maior. Existe há já vários anos uma ramificação portuguesa da Federação Pagã, mas que, não obstante o esforço em diversificar as tradições que agrega, tende a congregar mais wiccans do que reconstrucionistas. A dita organização nasceu, aliás, à luz da mentalidade dos primeiros grupos pagãos que nasceram do Wicca e que se concentraram em panteões específicos: o que é verdade para as tradições wiccans é verdade para todas as religiões neopagãs, daí que se fale dos oito festivais como se se aplicassem até entre reconstrucionistas. Estes, por outro lado, são um fenómeno mais recente em Portugal, de expressão mais reduzida, com menos bibliografia disponível ao público em geral (olhe-se para as parteleiras de religião na FNAC) e com um problema sério: a premeabilidade a ideologias de extrema-direita. Que sirva de exemplo este fórum: reconstrucionista, rico em informação, mas igualmente fértil em ideias que fariam sorrir alguns militantes do PNR. Separar as águas neste campo será um dos desafios futuros do reconstrucionismo pagão em Portugal.
Dito isto, não se entenda que não há encontros e cafés: a Federação Pagã em Portugal tem organizado diversas actividades e neste blogue que o Pedro também conhece tem-se tentado um pequeno, mas primeiro encontro entre alguns reconstrucionistas celtas portugueses. Já se sabe que as novidades demoram a chegar a Portugal e mais ainda a ganhar consistência e estruturas próprias em terras lusas. A seu tempo, Pedro ;)
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Héliocoptero
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domingo, 24 de fevereiro de 2008
Recordar e honrar
Velho continente e diverso que é, a Europa assistiu ao longo da sua História a incontáveis perseguições e assassinatos motivados por choques culturais e ideológicos. Ainda isso é actual e nenhum corpo de crenças, sejam elas religiosas ou políticas, pode afirmar ter as mãos limpas ou estar livre de perigo, porque toda a ideologia é permeável a extremismos, seja por culpa própria ou por influência de terceiros e mesmo no caso da mais pacífica das ideias. É coisa a ter em mente quando, entre outras coisas, se honra a memória de acções e pessoas passadas, que é o objectivo deste texto.
A 24 de Fevereiro de 391, por decreto do imperador Teodósio I, a chama sagrada de Vesta foi extinta e o grupo de virgens que a mantinha dissolvido. Era o fim de um culto que remontava aos primeiros tempos da cidade de Roma e um pronúncio do fim eminente do paganismo antigo. Pouco tempo depois, o encerramento e destruição de templos pagãos recebeu o aval imperial, a prática pagã era declarada ilícita e, em 393, realizavam-se os últimos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Para a Igreja Católica foram dias de triunfo; para a Europa foi a maior supressão cultural até então e uma das maiores da sua História.
É certo que no passado outras religiões haviam-se extinto, mas fora, regra geral, resultado da lenta transferência de devoções ou de processos sincréticos e não por imposição legal. A vivência religiosa da Europa até então havia sido principalmente uma de diversidade e coexistência de diferentes cultos, crenças e escolas de pensamento, algumas com centenas de anos, outras mais recentes. Havia por certo extremos opostos que recusavam misturas entre diferentes tradições, mas também pontos de contacto entre elas, tanto por influência mútua como por sincretismo. O panorama religioso europeu era, assim, dinâmico e extremamente diverso. Se perseguições houve no perído pagão - e elas existiram - o seu motivo radicava não em questões de fé, mas em matérias rituais e de autoridade política. Isto é, o que ditava a proibição ou limitação de uma religião não eram as suas crenças, mas o efeito destas na ordem pública. Não estava em causa a mitologia, o quê ou quem é que era adorado, mas como. A pedra de toque do paganismo antigo era a ortopraxia, não a ortodoxia: a autoridade era exercida sobre o aspecto prático, ou seja, a forma ritual e a preservação da paz pública, não sobre o valor das crenças individuais. Quando o Senado romano proibiu a Bacanália em 186 a.c. não foi por considerar herético o culto do deus do vinho, mas por denúncias de crimes e conspirações políticas que teriam lugar nas festividades. Quando Roma perseguiu os druidas não foi por eles não adorarem os deuses latinos, mas por questionarem a autoridade política romana. De tal modo que, uma vez conquistadas as tribos celtas, os cultos das suas divindades persistiram, isolados ou sincreticamente, romanizados em formas rituais e com praticantes nativos e romanos. O exemplo máximo será o de Epona, deusa celta dos cavalos cuja popularidade levou a que fosse adorada dentro da própria cidade de Roma. A romanitas não só era, em princípio, tolerante para com religiões alheias, como por vezes acolhia como seus os deuses de outros povos. Cybele, Apolo e Isis foram outros três exemplos disso mesmo.
Nada disto torna mais aceitável a perseguição movida contra os primeiros cristãos ou outras minorias, mas entender a dinâmica do paganismo antigo permite-nos perceber a dimensão do que sucedeu quando o cristianismo passou a ditar as regras: pela primeira vez, uma religião reclamava para si o monopólio do divino e impunha-o pela força, opondo-se a todos os que rejeitassem uma determinada ortodoxia. A ofensa passava a estar na diferença de fé e as perseguições por isso movidas ditaram o fim da diversidade religiosa europeia, suprimindo séculos de cultos e crenças múltiplas da foz do Tejo ao Mar Negro, das margens do Nilo à muralha de Adriano. Foi preciso esperar mais de mil anos até a Europa quebrar o monopólio imposto e caminhar, uma vez mais, para a sua natureza diversa.
Com isto em mente, em Agosto de 2006, a Federazione Pagana lançou o projecto do Dia Europeu da Memória Pagã para honrar os esforços dos que lutaram pela sobrevivência do paganismo antigo e reunir numa evocação comum os pagãos actuais que trabalham pela reconstrução dos cultos antigos no mundo moderno. A data escolhida? O 24 de Fevereiro, o dia em que se extinguiu o fogo de Vesta, sintoma da extinção das religiões antigas, tal como sintoma da sua recuperação é o reacender de chamas sagradas nos dias de hoje. Não que eu concorde com todas as palavras de todos os que dão vida à iniciativa ou que esteja com todos eles em todas as causas. Mas no Dia Europeu da Memória Pagã como noutras coisas há que ter o sentido de ortopraxia do paganismo antigo: unidade na prática, diversidade nas ideias. Honre-se a memória de Juliano, dos senadores que defenderam o altar da Vitória, dos revoltosos que lutaram pela reabertura dos templos, dos que morreram a defênde-los e dos que, ocultos, tentaram perpetuar a sua herança espiritual. E aumente-se o mérito dos seus esforços pelo trabalho dos que hoje reconstroem ou se inspiram nas religiões do passado para as tornarem uma parte viva do mundo moderno.
Pax Deorum!
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