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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Colecção Eleições 2009 #12

E passadas a eleições europeias de 2009, eis que ficam dois fantasmas: o do crescimento da esquerda à esquerda do PS e o da vitória do PSD. E as duas coisas vão mexer com temas LGBT. Porque a ascensão do Bloco dá força a um partido que sempre foi mais consistente em matéria de defesa da igualdade e porque o PS vai reforçar a luta contra a perda de votos para a sua esquerda com o argumento do regresso do PSD ao poder. E irá, quase de certeza, ameaçar com a possbilidade do Código Civil ficar por alterar na próxima legislatura por falta de uma maioria absoluta socialista ou devido a um governo de coligação PS-PSD. Se já o faziam antes das europeias...


O que nos coloca um dilema, se votar PS para travar o crescimento do PSD ou votar noutros que, pelo seu historial, mostram ser mais fidedignos em matéria de direitos LGBT. E a minha resposta é que mais vale votar em quem é crível segundo o critério dos próprios socialistas: no mesmo dia em que o PS acusou Manuela Ferreira Leite de não ter crediblidade por ter mudado de opinião sobre o TGV, José Sócrates propôs legalizar aquilo que o seu próprio partido tinha chumbado três meses antes com disciplina de voto imposta.

Nada nos garante que, mesmo com uma maioria absoluta, os socialistas não voltem a recuar por meros interesses político-partidários: se já antes nos escorraçaram com o argumento de que eram favor, mas votavam contra; se já antes encheram a boca com belos discursos e as ruas com bonitos cartazes para depois, no momento da verdade, darem o dito pelo não dito; se já antes não lhes bastou absterem-se ou darem liberdade de voto, mas acharam que a igualdade que o PS diz defender tinha que ser adiada com o seu voto contra... o que é que nos garante que não voltamos a ser vítimas da mesma irracionalidade e mentalidade da vitória a todo o custo, mesmo contra a consciência e o mínimo de integridade? E não estariamos nós a ceder precisamente isso se fossemos dar votos em quem contra nós votou? Agimos por convicção ou por medo de um regresso ao poder do PSD? Somos joguetes sem força própria prontos a sermos usados pelos aparelhos partidários? Ou seremos capazes de nas urnas apoiar quem nos tem coerentemente apoiado enquanto criamos uma base de apoio transversal a toda a sociedade civil?

Publicado em simultâneo no Devaneios LGBT.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Colecção Eleições 2009 #11

Com a Eurovisão ainda na memória, oiça-se a canção socialista para as eleições deste ano. É uma música apelativa, feita de discursos sobre a igualdade, do quanto choca e faz chorar o PS a discriminação de gays e lésbicas e de como o casamento civil é uma bandeira da "esquerda" democrática. A letra e voz é de José Sócrates, que é acompanhado pela banda dos jotinhas, os mesmos que não tocam o que quer que seja sem autorização do grande líder.

A cantiga socialista apela ao voto LGBT. A nova cantiga, aliás. Porque a velha era mais conservadora, feita da não-urgência da igualdade de acesso ao casamento civil, das dúvidas sobre o assunto, da necessidade de debate nacional e do chumbo com disciplina de voto imposta. E se três meses bastaram para mudar de opinião sem qualquer justificação racional para além da pura estratégia política, o que é que nos garante que, em nome do mesmo fim - o poder a todo o custo -, não iremos ser novamente atraiçoados por um Partido Socialista que já votou contra os direitos dos cidadãos LGBT com o argumento pacóvio de ser a favor, mas contra? Quanto vale a convicção da cantiga socialista para as eleições de 2009? Doze pontos ou muito menos?

O próximo número sai dia 7 de Junho, aqui e no Devaneios LGBT, e após o fecho das urnas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Colecção Eleições 2009 #10

Ao décimo número da colecção, é hora de recordar a "modernidade" da "esquerda" socialista. E não é de qualquer forma que o PS é moderno. Não! Os socialistas estão na vanguarda da inovação ideológica, são o porta-estandarte de novos tempos de convicção e coerência políticas. Surpreendem pelo inesperado e deixam qualquer adversário confuso pela sua lógica insondável.


O PS é, de facto, a "esquerda moderna"! Tão "moderna" que desafia a mais elementar lógica parlamentar, votando contra o que ele próprio diz defender. Um dia hão-de ser escritos incontáveis tratados sobre o assunto. Haverá um tempo que será inscrita nos anais da política a história de um grupo de deputados que, mesmo dizendo-se favoráveis a uma proposta, não puderam votar livremente nela; de um grupesco parlamentar que, mesmo dizendo que o problema era a altura e não a proposta, foi incapaz de agir em consonância e abster-se na votação. Em vez disso, contra as suas próprias palavras e convicções, votou contra com disciplina de voto imposta. Como se aquilo que se propunha fosse uma violação dos mais elementares princípios da esquerda. E clamando sempre que era a favor apesar de votar contra. Ou contra apesar de se dizer a favor. Qualquer coisa do género...

Eis, então, uma reedição socialista do Sir Robin dos Monty Python: confrontado com a proposta de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no passado dia 10 de Outubro, o PS fugiu com coragem, deu à sola com bravura e meteu o rabo entre as pernas com valentia. E eu não tenho o mais pequeno desejo de recompensar nas urnas tamanha façanha da "esquerda moderna" socialista.

O próximo número sai dia 19 de Maio, aqui e no Devaneios LGBT.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Colecção Eleições 2009 #9

A dois dias das comemorações do 25 de Abril, lembremos as virtudes ausentes do grupo parlamentar socialista na votação do passado dia 10 de Outubro: consciência, liberdade e pluralismo. Que a primeira esteve lá, mas não teve força para mais do que declarações de voto, a segunda foi anulada pela aberração que dá pelo nome de "disciplina de voto" e a terceira precisava de autorização prévia, como foi o caso do ex-jotinha que votou a favor do casamento entre homossexuais, naquela de ficar bem na fotografia. E foi tudo um belo exercício de tábua rasa da representatividade democrática, expresso preto no branco por uns deputados do PS que se queixaram que a pressão exercida à altura pelos cidadãos era "ilegítima" (sic).


A dois dias do aniversário da Revolução, a mesma que instaurou uma democracia representativa, recordemos, então, o escândalo socialista com o desejo dos representados em determinarem o sentido de votação do representantes. Que melhor homenagem poderia o PS dar a Abril do que fazer valer zero os mandatos populares e passar a ideia de que os deputados falam submissivamente pelo partido e não pelas populações dos círculos eleitorais pelos quais foram eleitos? É o próprio cabeça de lista às europeias quem o afirma. Pobre de ti, Liberdade, que foste ganha ontem para hoje teres que andar a pedir autorização e a lamber botas em São Bento...

O próximo número sai a 7 de Maio, aqui e no Devaneios LGBT.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Colecção Eleições 2009 #8

E ao terceiro mês, a alma esquerda do PS ressuscitou. Não se sabe bem em que estado, mas suspeita-se que não deve ser rosa que se cheire dado que voltou à vida propondo, com pompa e circunstância, aquilo que o mesmo partido chumbara noventa dias antes com disciplina de voto imposta. E, ironicamente, ressuscitou no mesmo dia em que acusou a presidente do PSD de não ser crível por ter mudado de opinião, o que nos deixa conversados quanto à credibilidade do PS em matéria de direitos LGBT.


E eis então chegado um Partido Socialista ressuscitado, escondendo as chagas de uma votação que devia envergonhar a dita "Esquerda moderna", apresentando-se sexy e tentador para apelar ao voto dos mesmos gays e lésbicas que escorraçou a 10 de Outubro passado. A memória não pode ser curta!

O próximo número sai dia 23 de Abril, aqui e no Devaneios LGBT.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Colecção Eleições 2009 #7

Em tempos não muito idos, a Juventude Socialista era a ponta de lança LGBT do PS. Foram cartazes a dizer que eramos iguais aos outros, discursos no parlamento e encontros de jotinhas, a elaboração de um projecto-lei que nunca passou de um projecto de intenções e até a presença no Orgulho em Lisboa. Estas e outras coisas deixavam a ideia de que estava ali um grupo que defenderia a igualdade de direitos com convicção e firmeza... até ao dia 10 de Outubro. Nessa data, ficámos todos a saber o verdadeiro peso político da JS e o peso da consciência dos jotinhas: nulo! Bastou os graudos dizerem que não se votava a favor dos projectos-lei do Bloco e dos Verdes para os pequenos socialistas porem de parte os discursos, os cartazes e as marchas e darem o seu voto contra. É certo que por entre muito choro, queixas e pontapés, mas, como crianças birrentas metidas na ordem, lá votaram conforme lhes foi ordenado pelos mais velhos. Tanto que o único que votou a favor - um ex-jotinha - só o fez porque teve autorização para isso. Foi dito que era um sinal de pluralidade dentro do PS, embora nunca se tenha explicado porque é que o pluralismo precisa de autorização prévia.


A lei não prevê a criminalização da fuga à "disciplina partidária", pelo que não pode ter sido um medo da Justiça que tornou a JS incapaz de traduzir as palavras em gestos no momento da verdade. Suspeita-se, isso sim, do carreirismo. Alguém (ou os próprios) deve ter lembrado os jotinhas das possibilidades de voltarem a estar nas listas de deputados se desobedecessem às ordens partido e nem é preciso estar a fazer um grande esforço de imaginação: basta recordar aquilo que, sobre a (in)dependência dos deputados, foi escrito por Vital Moreira, esse paladino do aparelho partidário socialista. Verdade seja dita, a JS não teve coragem para pôr as ideias que defendera à frente da carreira política. É certo que não teria ganho a batalha, mas teria marcado posição. E a política também se faz disso: de derrotas em que se ganha credibilidade, algo certamente distante da teoria socialista da vitória a todo o custo.

Pergunta: se o PS voltasse a dar o dito pelo não dito sobre os casamentos entre homossexuais, de que lado estaria a JS? Do lado dos seus ideais ou, mais uma vez, do lado da carreira política? Vale a pena confiar novamente?

O próximo número sai dia 9 de Abril, aqui e no Devaneios LGBT.

terça-feira, 10 de março de 2009

Colecção Eleições 2009 #6

Há por aí uma mensagem a correr o Hi5 onde se fala na necessidade de votar no PS para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo venha a ser legalizado. Diz que o Bloco e os Verdes não foram capazes de votar a favor dos projectos-lei um do outro e que, caso os socialistas não consigam a maioria absoluta, o PSD e o CDS vão estar em posição de condicionar o PS e impedir a consagração de direitos dos homossexuais. Desconheço o autor da mensagem, mas dá para suspeitar sobre qual a sua militância ou simpatia partidária. Porque o súbito interesse dos socialistas na igualdade de acesso ao casamento civil tem mais a ver com um desejo de travar a ascensão do Bloco do que com um real interesse nos direitos dos homossexuais.



Se assim não fosse, o PS teria dado liberdade de voto aos seus deputados no passado dia 10 de Outubro; ou, quando muito, ter-se-ia abstido. Votar contra com disciplina de voto imposta foi um gesto próprio de um partido que vê no casamento entre pessoas do mesmo sexo uma negação dos seus valores essenciais. Foi coisa própria de um CDS ou até de um PSD de Manuela Ferreira Leite. Que escassos meses depois tenha proposto aquilo que chumbara - chegando ao ponto de elevá-la ao estatuto de bandeira socialista - diz muito do modo como o PS encara os direitos dos homossexuais como um mero joguete eleitoral e não uma matéria ideológica de base.

Convém não esquecer o dia 10 de Outubro e lembrar que o Partido Socialista que pede hoje maioria absoluta foi aquele que, detendo essa mesma maioria, usou-a para votar contra a igualdade de direitos. Exactamente cinco meses depois, é de pensar se vale a pena confiar outra vez.

O próximo número sai dia 25 de Março, aqui e no Devaneios LGBT.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Colecção Eleições 2009 #5


Do espírito carnavalesco do PS ou de como o Partido Socialista espera que os homossexuais não levem a mal a votação do dia 10 de Outubro. Não que eu não esteja contente pelo facto de a igualdade no acesso ao casamento civil estar, enfim, na agenda de uma força política "de poder", mas entre isso e dar o meu voto aos socialistas vai uma grande diferença. Porque é apenas isso o que José Sócrates quer: ganhar votos e estancar a ascensão do Bloco. Há brincadeiras de Carnaval que são pouco recomendáveis e a que o PS tem andado a fazer com os homossexuais é uma delas, que ora diz que é favor e vota contra para depois propôr o que chumbou escassos meses antes. E com lágrimas de crocodilo à mistura. Um pouco como com os foguetes, mais vale prevenir do que remediar e não ir na conversa socialista.

O próximo número sai dia 10 de Março, aqui e no Devaneios LGBT.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Colecção Eleições 2009 #4

Quem leu esta notícia na passada segunda-feira, segundo a qual José Sócrates disse que o casamento entre homossexuais seria uma vitória "dos valores de sempre do PS", é tentado a pensar que o Primeiro-Ministro sofre de alguma forma de doença bipolar que o faz, num dado momento, ignorar em absoluto uma questão e, passados três meses, elevá-la a bandeira do seu partido. E com o requinte de ainda ter acrescentado que não tem "orgulho na forma como a sociedade portuguesa e outras sociedades discriminavam os homossexuais ainda há umas décadas atrás." Será certamente um sentimento novo para José Sócrates, já que em Outubro de 2008 não só não demonstrou essa vergonha, como fez saber que a igualdade de gays e lésbicas não estava na agenda do PS. O mesmo partido que impôs disciplina de voto contra os seus "valores de sempre".


O comportamento errático dos socialistas no que a direitos LGBT diz respeito faz pensar que, para o partido, a palavra «igualdade» é uma coisa bonita para encher a boca, um bom face lifting para a "esquerda moderna", mas que ninguém garante que seja concretizada quando chegar a altura do voto. Já tivemos disso um exemplo há quatro meses. Não obstante o mérito do proposto na moção de Sócrates - e o impulso que isso é para nós - é de confiar outra vez?

O próximo número sai dia 25 deste mês.

Publicado em simultâneo no Devaneios LGBT

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Colecção Eleições 2009 #3

Do dar o dito pelo não dito do Partido Socialista sobre o casamento entre homossexuais, em jeito de ter medo da perda de votos à esquerda num incerto ano eleitoral de crise. Ou então como quem não gosta de ser ultrapassado e vota contra o que defende para propô-lo pouco depois. Joguetes, meus caros, estão a querer transformar-nos em joguetes. É bom que nenhum de nós recicle o seu voto como o PS recicla o seu discurso, não vão os socialistas tecê-las e mandar-nos embora com a mesma facilidade com que nos chamam agora... três meses depois de nos terem escorraçado... depois de anos a aliciar-nos. O 10 de Outubro foi uma lição preciosa; a memória não pode ser curta. Que não se esmoreça a luta!



O próximo número sai dia 11 de Fevereiro, aqui e no Devaneios LGBT

sábado, 17 de janeiro de 2009

Colecção Eleições 2009 #2

Conforme prometido, eis o novo modelo da Colecção Eleições 2009, a lembrar a coragem cobarde do Partido Socialista, essa "esquerda" popular de que Sócrates tanto se orgulha, mas que, de disciplina imposta, chumbou os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A memória não pode ser curta e o voto não pode recompensar a cobardia de quem não teve sequer coragem para seguir a sua consciência. Sobretudo depois de terem estado meses a encher a boca com discursos sobre igualdade e modernidade.



O próximo número saí dia 27 deste mês, aqui e em simultâneo no Devaneios LGBT.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Colecção Eleições 2009 #1

Em ano eleitoral, o Penates Publici vai apresentar aos seus leitores uma linha de t-shirts que recorda a "vanguarda socialista" da "esquerda" moderna de José Sócrates. Não, não estão à venda. São apenas ideias para quem quiser pegar nelas e que vão desfilar por este blogue todos os meses, semana sim e semana não, pelo menos até ao Orgulho LGBT de 2009. Estão à vontade para copiar e fazer as vossas em casa ou num qualquer estúdio ou loja. A memória não pode ser curta e o 10 de Outubro de 2008 não é para esquecer na maré eleitoralista deste ano.


O próximo número sai dia 17, aqui e em simultâneo no Devaneios LGBT.