segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A Câmara ficou mais estética
Há coisas que me levam a querer ficar de fora das celebrações do centenário da República, porque houve coisas nauseabundas no republicanismo de terra-queimada de 1910. Podemos começar pela exclusão do voto das mulheres, passar pela ingenuidade ideológica de achar suficiente substituir um rei por um presidente, continuar pelas lutas intermináveis pelo poder, vislumbrar o anti-clericalismo doentio e acabar no projecto de substituição da bandeira como expressão de um regime de tábua-rasa. Isto já para não falar no sentimento laudatório que havia e ainda hoje há pelos regicidas. E eu, ao contrário de outros republicanos, estimo muito a memória de muitos dos nossos monarcas. Como já antevejo uma generalizada ausência de espírito crítico e uma frieza ideológica à imagem de uma Exposição do Mundo Português, toda a panóplia de celebrações que se esperam para o centenário da República em 2010 causa-me algumas náuseas.
Por isso, não sendo monárquico, o regresso da bandeira monárquica aos Paços do Concelho de Lisboa não deixa de me dar motivos para sorrir. Pelo valor simbólico da acção, pela mensagem satírica que lhe foi associada e pelo regresso momentâneo a uma bandeira que me agrada mais que a actual, estética e simbolicamente. O azul e branco voltaram, vivam as cores da Fundação e da Liberdade! Só é pena a bandeira ter sido pequena. Ninguém tinha uma maior lá em casa?
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sexta-feira, 17 de julho de 2009
A res privada
O já popularmente chamado "negócio dos contentores de Alcântara" é um caso flagrante do Estado ao serviço dos interesses privados em detrimento do interesse público e da imoralidade que é a promiscuidade entre política e mundo empresarial. A Liscont, empresa do grupo Mota-Engil, liderado pelo socialista Jorge Coelho, recebe uma concessão de décadas do terminal portuário de Alcântara sem qualquer concurso e num negócio que, para além de poder ser inconstitucional, diz agora o Tribunal de Contas que é ruinoso para o Estado. Mais: a mesma instituição diz mesmo que o negócio só favorece a Liscont, o que equivale a dizer que o interesse público foi alienado à medida dos interesses particulares de uma empresa privada controlada por um socialista.
Que nada disto tenha ocorrido a quem no Governo elaborou o contrato, é coisa realmente espantosa. Que ninguém se tenha lembrado da incompatibilidade entre o contrato e o serviço ao país a que os titulares de cargos públicos estão obrigados, é verdadeiramente escandaloso. E que ninguém no executivo nacional tenha percebido o quanto o caso é gravoso para a já muito debilitada credibilidade da classe política, é não só ruinoso para a democracia, como um perfeito sintoma do estado de podridão do Estado Português.
Há já alguma surpresa no facto de este Governo socialista ter sistematicamente hesitado no combate à corrupção?
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sexta-feira, 10 de abril de 2009
Aniversário da Grande Mãe
Chamada Kybele, Kybebe, Agdistis, Reia-Cybele ou apenas Cibele, os romanos referiam-na frequentemente como Magna Mater, a Grande Mãe, cujo aniversário e culminar de sete dias de festa em sua honra tinha lugar hoje, a 10 de Abril. Considerada divindade progenitora de todas as coisas, dos deuses até aos animais selvagens, era assim associada a Reia, a titânide grega que deu à luz Zeus e os seus irmãos, e representada num carro puxado por dois leões, como na fonte madrilena que tem o seu nome. No entanto, a origem do culto de Cibele não está nem em Roma nem na Grécia, mas na actual Turquia (antiga Frigia), mais propriamente na região de Pessinus, tendo sido trazido para a urbe romana em 204 a.C. e alvo de restrições pelo facto de ser presidido pelos chamados galli, sacerdotes frígios que se auto-flagelavam e castravam em danças extásicas. Ainda assim, apesar das limitações, Cibele viria a ser uma das divindades mais populares da Roma antiga, tendo-se o seu culto espalhado por todo o mundo romano, incluindo Lisboa, onde ainda hoje subsistem vestígios da devoção de que foi alvo.
Pouco antes do terramoto de 1755, quando se procedia à construção de uma casa entre a Rua das Pedras Negras, a Travessa do Almada e o Largo da Madalena, foram descobertas as fundações de um grande edifício romano, primeiro chamado de "fábrica grande e magestosa", depois templo de Cibele, por juntamente se terem encontrado ex-votos romanos à Grande Mãe. O espaço de culto à deusa ficaria assim no limite (exterior?) das muralhas romanas, junto ao que terá sido o fórum lisboeta e próximo daquela que mais tarde seria a Porta de Ferro, entrada ocidental da cerca moura aquando da conquista de Lisboa em 1147 e, possivelmente, construída no que restava de um arco do triunfo romano. No século XVIII, depois do terramoto, sobre as ruínas acabou por ser erguida uma habitação pombalina e, numa das paredes exteriores, mais propriamente na que dá para a Travessa do Almada, foram colocados quatro ex-votos que ainda hoje lá estão, embora em mau estado de conservação.
Já agora, o piso térreo do edifício - o mesmo do ar condicionado "confortavelmente" em cima de um vestígio romano - é actualmente ocupado pela sede do Movimento Esperança Portugal. Ainda toquei à campainha para perguntar se tinham planos para mudar a coisa de lugar e dar o devido destaque (e cuidado) a peças de valor histórico, mas ninguém abriu a porta. Fiquei sem saber se a "esperança" do movimento também abrange o património.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Grão a grão...
... enche-se a cidade de bicicletas? Câmara cria ciclovias e parques para 'biclas'. Monsanto, Carnide, Campolide, Parque Eduardo VII, Benfica, Olaias, Bela Vista, Campo Pequeno e Avenida Gago Courinho. Parece ser, para já, o que está no horizonte da capital portuguesa. Resta saber se, no final, o panorama vai ser o de um sistema de mobilidade a duas rodas global, que funcione como um todo e que seja efectivamente uma alternativa ao automóvel, ou se vai ser uma coisa esquartejada, ciclovias a retalho sem ligação entre elas como já acontece actualmente. A ver vamos. Para já, a cidade parece ir no bom caminho.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Já está marcado!
Com o Terreiro do Paço em obras, este ano o Arraial é em Belém. Consta que com um novo modelo de produção, com um grupo de trabalho independente. E com dois motes de peso: os 40 anos dos tumultos de Stonewall, que estão na origem das celebrações do Orgulho, e os 25 da morte de António Variações. Falta saber o trajecto da marcha.
Via Central LGBT e em simultâneo no Devaneios LGBT
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Um futuro a duas rodas
No Dia Europeu sem Carros, eis uma boa notícia: Portugueses estão a andar mais de bicicleta. E não como forma de desporto, mas como meio de transporte urbano. Timida e cautelosamente, a coisa começa a ganhar raízes pela mão de autarquias que têm a lucidez de ver na bicicleta uma alternativa ao carro e até ao próprio autocarro.
Lisboa segue hoje o exemplo de décadas de outras cidades europeias, assinando um protocolo com a APL que permitirá a instalação de uma ciclovia de Belém ao Cais do Sodré (ver notícia aqui). Pena é que o projecto se limite à frente ribeirinha e não haja coragem para avançar com idêntica medida em toda a urbe lisboeta. Sem preconceitos, sem receios e alheio ao comodismo endémico que faz do carro um sinal de estatuto social. E esqueça-se os argumentos das colinas lisboetas e do clima, mero fruto da preguiça e falta de lucidez nacionais. Senão vejamos.
Se o terreno acidentado fosse realmente um problema e não uma desculpa já gasta, então seria natutal que Lisboa tivesse já ciclovias nas zonas planas. E, no entanto, não se vislumbra nem um metro que seja. Pergunte-se quantas estão previstas no famigerado Plano de Reabilitação da Baixa-Chiado para se perceber a importância que as pseudo-elites não dão aos transportes alternativos. Ou não é a Rua Augusta e respectivas paralelas, o Rossio, os Restauradores, a Praça da Figueira, o Martim Moniz e toda a frente ribeirinha terreno plano? E as avenidas 5 de Outubro, da República e de Berna? A Rua da Palma e a Avenida Almirante Reis? O relevo é propício a bicicletas, o espaço até nem falta, mas o modelo de mobilidade urbana é o mesmo: obsoleto, retrógado e irresponsável!
Se, por outro lado, o problema é o clima, o medo da chuva e do frio, a resposta volta a ser que isso é apenas e só o comodismo português a falar. Basta uma viagem ao norte da Europa para o confirmar. Na Suécia faz bastante mais frio do que cá e não há Inverno em que não neve ou caia chuva em abundância. E, ainda assim, os suecos não têm qualquer problema em dar uso à bicicleta como meio de transporte urbano debaixo dessas condições metereológicas. Digo-o até por experiência própria, que eu já lá morei durante um ano.
Como implementar, então, uma rede de ciclovias na Lisboa das muitas colinas? Primeiro, com imaginação e vontade.
Por exemplo, a Rua da Palma e a Avenida Almirante Reis têm uma inclinação mais leve que a Avenida da Liberdade e vão da Baixa ao Areeiro. Pelo caminho, permitem a ligação por terreno plano à Estefânia e à Praça de Londres por via da Rua Pascoal de Melo e a Avenida de Paris, respectivamente. E, uma vez num dos dois sítios, têm-se acesso por terreno pouco acidentado ao Técnico, ao Hospital Dona Estefânia, ao Campo Mártires da Pátria, a Picoas e ao Saldanha, às entradas das avenidas 5 de Outubro e da República, à Gulbenkian e à Praça de Espanha. Ao lado do El Corte Inglês, a subida a pé da muito inclinada, mas curta ligação entre as avenidas António Augusto Aguiar e Sidónio Pais dá acesso ao Parque Eduardo VII e Jardim da Amália por via da plana Alameda Cardeal Cerejeira, por sua vez uma rota para as Amoreiras sem ser preciso subir a Joaquim António de Aguiar. E se alguns acham a Avenida da Liberdade demasiado inclinada para subir, todos a acham óptima para descer, pelo que não existe motivo para não ter uma ciclovia para quem queira pedalar num ou em ambos os sentidos.
Depois, há que cruzar os transportes públicos com o uso da bicicleta. Se o terreno não facilita a vida, porque não adaptar os eléctricos e os elevadores para o transporte de bicicletas no exterior? Um cidadão que estivesse na Baixa e quisesse chegar a Picoas podia pedalar até ao Lavra, subir a encosta no elevador e continuar a pedalar já no Campo Mártires da Pátria. Ou subir dos Restauradores até ao Miradoiro de São Pedro de Alcântara pela Glória sem nunca ter que desistir do uso da bicicleta. Ou, em alternativa, fazer o mesmo com os autocarros que sobem a Avenida da Liberdade e a Fontes Pereira de Melo.
Dir-se-ia que este sistema não permite o acesso a qualquer rua. Mas também de carro se tem o mesmo problema, com vias interditas ao trânsito e outras apenas com um sentido, obrigando o condutor a dar voltas até chegar exactamente onde quer. E se não é por isso que se diz ser impossível circular de automóvel, porque é que há-de impedir a circulação de bicicletas? Dir-se-ia também que não há espaço para a passagem de mais eléctricos na cidade e que eles entopem o trânsito, mas isso sucede precisamente porque se privilegiou o automóvel individual como meio de transporte em Lisboa. Subjugou-se o modelo de mobilidade e a organização do espaço urbano ao uso do carro em vez de se apostar nos transportes colectivos e alternativos a bem de uma cidade mais harmoniosa, mais saudável, mais ecológica e com melhor qualidade de vida. Não houve vontade política para acabar com o comodismo generalizado ou coragem, sentido de responsabilidade, visão e um pouco de imaginação para ultrapassar as barreiras naturais e constuir uma Lisboa de século XXI. A mudança pode ter começado hoje, entre Belém e o Cais do Sodré.
Adenda 1: Para quem ainda acha que na urbe lisboeta só se anda de carro, Lisboa é das capitais com mais poluição.
Adenda 2: Sobre o uso da bicicleta em Lisboa, ver este e este blogue.
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sexta-feira, 27 de junho de 2008
Todos ao Terreiro do Paço!
Para amanhã espera-se sol, muito sol; na baixa lisboeta, há que juntar cor, muita cor. Amanhã é dia de Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa e de Arraial, o primeiro lá pelas 16 horas, o segundo abre logo a seguir. O local? Príncipe Real para o arranque da parada e Praça do Comércio para a festa até noite dentro. Pela igualdade de direitos, pelo respeito pela diferença e pela visibilidade que os homossexuais só conseguem dizendo que o são. Ao contrário de outras minorias, para quem a cor da pele ou a fisionomia falam por si, sem necessidade de afirmarem em público que são negros ou mulheres. Ser-se heterossexual é verdade até prova em contrário, ser-se gay ou lésbica requer afirmação por vontade própria. O silêncio apenas torna os homossexuais invisíveis, logo desprovidos de existência legal e social. O silêncio é o desejo dos homofóbicos. Quebra-o!
Publicado em simultâneo no Devaneios LGBT
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