domingo, 24 de fevereiro de 2008

Recordar e honrar

Velho continente e diverso que é, a Europa assistiu ao longo da sua História a incontáveis perseguições e assassinatos motivados por choques culturais e ideológicos. Ainda isso é actual e nenhum corpo de crenças, sejam elas religiosas ou políticas, pode afirmar ter as mãos limpas ou estar livre de perigo, porque toda a ideologia é permeável a extremismos, seja por culpa própria ou por influência de terceiros e mesmo no caso da mais pacífica das ideias. É coisa a ter em mente quando, entre outras coisas, se honra a memória de acções e pessoas passadas, que é o objectivo deste texto.

A 24 de Fevereiro de 391, por decreto do imperador Teodósio I, a chama sagrada de Vesta foi extinta e o grupo de virgens que a mantinha dissolvido. Era o fim de um culto que remontava aos primeiros tempos da cidade de Roma e um pronúncio do fim eminente do paganismo antigo. Pouco tempo depois, o encerramento e destruição de templos pagãos recebeu o aval imperial, a prática pagã era declarada ilícita e, em 393, realizavam-se os últimos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Para a Igreja Católica foram dias de triunfo; para a Europa foi a maior supressão cultural até então e uma das maiores da sua História.

É certo que no passado outras religiões haviam-se extinto, mas fora, regra geral, resultado da lenta transferência de devoções ou de processos sincréticos e não por imposição legal. A vivência religiosa da Europa até então havia sido principalmente uma de diversidade e coexistência de diferentes cultos, crenças e escolas de pensamento, algumas com centenas de anos, outras mais recentes. Havia por certo extremos opostos que recusavam misturas entre diferentes tradições, mas também pontos de contacto entre elas, tanto por influência mútua como por sincretismo. O panorama religioso europeu era, assim, dinâmico e extremamente diverso. Se perseguições houve no perído pagão - e elas existiram - o seu motivo radicava não em questões de fé, mas em matérias rituais e de autoridade política. Isto é, o que ditava a proibição ou limitação de uma religião não eram as suas crenças, mas o efeito destas na ordem pública. Não estava em causa a mitologia, o quê ou quem é que era adorado, mas como. A pedra de toque do paganismo antigo era a ortopraxia, não a ortodoxia: a autoridade era exercida sobre o aspecto prático, ou seja, a forma ritual e a preservação da paz pública, não sobre o valor das crenças individuais. Quando o Senado romano proibiu a Bacanália em 186 a.c. não foi por considerar herético o culto do deus do vinho, mas por denúncias de crimes e conspirações políticas que teriam lugar nas festividades. Quando Roma perseguiu os druidas não foi por eles não adorarem os deuses latinos, mas por questionarem a autoridade política romana. De tal modo que, uma vez conquistadas as tribos celtas, os cultos das suas divindades persistiram, isolados ou sincreticamente, romanizados em formas rituais e com praticantes nativos e romanos. O exemplo máximo será o de Epona, deusa celta dos cavalos cuja popularidade levou a que fosse adorada dentro da própria cidade de Roma. A romanitas não só era, em princípio, tolerante para com religiões alheias, como por vezes acolhia como seus os deuses de outros povos. Cybele, Apolo e Isis foram outros três exemplos disso mesmo.

Nada disto torna mais aceitável a perseguição movida contra os primeiros cristãos ou outras minorias, mas entender a dinâmica do paganismo antigo permite-nos perceber a dimensão do que sucedeu quando o cristianismo passou a ditar as regras: pela primeira vez, uma religião reclamava para si o monopólio do divino e impunha-o pela força, opondo-se a todos os que rejeitassem uma determinada ortodoxia. A ofensa passava a estar na diferença de fé e as perseguições por isso movidas ditaram o fim da diversidade religiosa europeia, suprimindo séculos de cultos e crenças múltiplas da foz do Tejo ao Mar Negro, das margens do Nilo à muralha de Adriano. Foi preciso esperar mais de mil anos até a Europa quebrar o monopólio imposto e caminhar, uma vez mais, para a sua natureza diversa.

Com isto em mente, em Agosto de 2006, a Federazione Pagana lançou o projecto do Dia Europeu da Memória Pagã para honrar os esforços dos que lutaram pela sobrevivência do paganismo antigo e reunir numa evocação comum os pagãos actuais que trabalham pela reconstrução dos cultos antigos no mundo moderno. A data escolhida? O 24 de Fevereiro, o dia em que se extinguiu o fogo de Vesta, sintoma da extinção das religiões antigas, tal como sintoma da sua recuperação é o reacender de chamas sagradas nos dias de hoje. Não que eu concorde com todas as palavras de todos os que dão vida à iniciativa ou que esteja com todos eles em todas as causas. Mas no Dia Europeu da Memória Pagã como noutras coisas há que ter o sentido de ortopraxia do paganismo antigo: unidade na prática, diversidade nas ideias. Honre-se a memória de Juliano, dos senadores que defenderam o altar da Vitória, dos revoltosos que lutaram pela reabertura dos templos, dos que morreram a defênde-los e dos que, ocultos, tentaram perpetuar a sua herança espiritual. E aumente-se o mérito dos seus esforços pelo trabalho dos que hoje reconstroem ou se inspiram nas religiões do passado para as tornarem uma parte viva do mundo moderno.

Pax Deorum!